Dani

 

“Minha história é um pouco longa, assim como a da maioria das pessoas que sofrem desse problema chamado Emetofobia. O fato de levar tantos anos para descobrir e fazer o diagnóstico exato me angustia, porque sei o sofrimento que é não saber o que se passa dentro de nós mesmos. Pra começar, vamos definir exatamente o que significa essa palavra até então estranha, mas que nos domina 24 horas por dia.

“A emetofobia é o medo excessivo ou irracional de vomitar. A definição não está ligada apenas ao fato de sentir-se mal ao ver alguém vomitando, mas ao medo excessivo do ato e de, inclusive, fazê-lo na presença de outros. Pessoas que sofrem de emetofobia são conhecidas por se manterem afastadas de pessoas que podem estar doentes, de modo a evitar a presença em lugares onde pessoas podem vir a vomitar, e acima de tudo, são conhecidas por manterem hábitos alimentares ultra-cuidadosos de forma a minimizar a possibilidade de vômito.”

Primeira fase: Vamos começar lá em 2004, quando a primeira fase da doença se manifestou. Meu medo de vomitar sempre foi muito intenso, consigo lembrar de todas as vezes que isso aconteceu comigo ou com alguém próximo a mim. Essas cenas se fixaram tanto na minha memória, que consigo revive-las direitinho, com todos os detalhes possíveis – e sim, elas me veem a mente todos os dias, a exatos nove anos. Naquela época, eu estava na quarta série do ensino fundamental, e após uma festa junina na escola, comecei a passar mal durante uma aula. Tentei ao máximo “fingir” que não era nada, mas quando a sensação virou desespero, me levantei e fui até a frente da sala de aula pedir ajuda da professora. Até porque, sair da sala para ir ao banheiro finalizar o “ato”, nem passava pela minha cabeça. E não passa, até hoje.

Chegando na frente da sala, em frente ao quadro negro, com cerca de 30 alunos olhando diretamente pra mim, pedi ajuda e quase vomitei ali na frente. A professora me apontou o lixo (como a saída mais próxima), e eu tranquei. A sensação ruim foi desaparecendo, mas a situação me deixou tão tensa que sai correndo da sala, chorando, pedindo pra ir pra casa. A partir daí uma onda de desespero se instalou em mim, e se fixou de certa maneira que desde aquele dia, minha vida mudou completamente. Fui pra casa, mas a cena não saia da minha cabeça, e desde então um pânico profundo começou a surgir. Começava a lembrar de todas as cenas que já havia visto, e parei de comer. Meu apetite era zero, e não conseguia nem pensar em comida, muito menos sentir o cheiro. Tudo me enjoava, e na época eu não sabia o motivo. Acho que pelo fato de eu ainda ser criança, ninguém imaginou que isso teria sido um trauma, e que minha falta de apetite e enjoos diários eram de fato, psicológicos.

Fui em muitos médicos, tomei muitos remédios e até ultrassom cheguei a fazer. E nada. Tudo em perfeito estado, o que me deixava ainda mais angustiada. Em um mês, perdi 10 quilos, e meu interior ficou extremamente abalado, dependia de todo mundo e me sentia fraca. Chorava sozinha durante a escola, e pedia para minha mãe ficar comigo e me buscar mais cedo. Os professores ficaram preocupados, mas ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo comigo. Um dia, um médico me receitou um remédio muito ruim. Como sempre fui medrosa com remédios fazia um escândalo para conseguir tomar. Numa dessas tentativas, tive uma sensação de “quase” vomito novamente, mas ele veio e tranquei. Essa sensação de controle que eu tive, me libertou. Nunca me esqueço como aquele dia foi especial, de uma hora pra outra, sem sentido ou lógica alguma, eu tinha me libertado dos meus medos. Uma sensação de paz tomou conta de mim, e comecei a ver tudo mais colorido. Lembro que naquele dia fui caminhar com meu pai, e só de sentir o vento no meu rosto, eu já sorria de felicidade.

Foi um dia que me marcou muito, e achei que estava curada desde então. Puro engano, a emetofobia estava lá, guardadinha dentro de mim. Passei oito anos bem, sem nenhum sintoma, enjoo ou fraqueza. O medo de passar mal sempre esteve presente, mas eu sentia que de alguma forma ele estava adormecido. E durante todos esses anos não passei mal uma vez sequer, nem que seja um enjoo, cólica ou até uma gripe forte. Fiquei imune a tudo, e sempre feliz.

Segunda fase: No réveillon de 2011, fui para a praia com minha família e alguns amigos. Tinha acabado de terminar o ensino médio e fazer uma viagem inesquecível para Barcelona. Minha felicidade era imensa, e nunca estive tão bem. Achei de verdade que tinha me curado, e que o ano de 2004 tinha ficado como uma página borrada do meu caderno. Mas como praia e verão é sinônimo de virose, adivinhem o que aconteceu comigo? Na madrugada do dia primeiro de janeiro comecei a sentir dores horríveis de estômago, e comecei a me medicar (com remédios fraquinhos que tinham na praia). Não adiantou e passei a madrugada em claro. Pela manhã estava pior ainda, e mesmo com remédios, “ele” veio. Mas como sempre, prendi denovo, não deixei que o ato se confirmasse. Na hora, o pânico tomou conta de mim, e tudo que vivi em 2004 me veio a cabeça. Eu tremia e suava muito, não conseguia acreditar que uma situação dessa teria acontecido comigo. E tudo que eu pensava era “por favor Deus, que o ano de 2004 não se repita novamente”. Mas eu sabia que iria, e minha intuição nunca falhou.

Desse dia em diante, tudo mudou. Fui pra casa, tive medo de comer, medo de sair, e até medo de ficar em pé. Me deitei na minha cama e passei cinco dias de cama, sem comer absolutamente nada. Nem um copo de água eu conseguia. Minha mãe entrou em desespero e marcou hora em um clínico geral para ver o que estava acontecendo. No dia da consulta, fui obrigada a me levantar. Só de pensar, eu chorava e tremia de medo. Nesse dia minha mãe me deu metade de um calmante que ela usava para dormir. Tomei e me senti muito bem, o nervosismo se foi e tive coragem de me levantar da cama e me olhar no espelho.

Me vi branca, magra e completamente outra pessoa. O médico me disse que poderia ser uma infecção que veio após a virose (porque meus sintomas eram parecidos). Fiquei uma semana tomando antibiótico e almoçando e jantando gelatina. Foi horrível, mas sair da cama já era um grande passo. Assim que terminei o antibiótico, tudo continuou normal, e os enjoos eram constantes. Marcamos hora no meu pediatra, porque é o único médico que confio e vou. Lá ele me pediu vários exames, como ultrasom, sangue, urina e fezes. Tudo deu ok, tirando o fato de ter desmaiado de medo tirando sangue. Mas consegui descobrir que estava com vermes. O médico me deu um remédio horrível, que tomei durante uns cinco dias. E claro, depois os sintomas ainda continuaram.

Pedi outro exame para ver se eu ainda estava com vermes (porque na minha cabeça, era isso que me fazia sentir enjoo). O médico me deu uma requisição e lá fui eu, tentar “provar” que era disso os sintomas que eu tinha. Mas o resultado deu negativo, tudo o que eu tinha já havia passado. Quando duvidei do exame na frente do médico, ele disse eu estava muito ansiosa e preocupada, e que talvez poderia ser algo psicológico (já que desde pequena eu tinha muito medo de tudo). Minha sorte foi me consultar com uma pessoa que me conhecia bem, e colocou a dúvida na minha cabeça.

Começamos a pensar que sim, poderia mesmo ser verdade. Porque não? Pesquisei na internet e muita coisa se encaixou comigo. Ele me indicou uma psicóloga e uma psiquiatra. Depois de várias tentativas de diagnóstico, descobri a Emetofofia. O meu medo de digitar a palavra vomito (confesso que está bem difícil de escrever isso aqui), nunca me permitiu procurar casos na internet. Um dia tomei coragem e descobri tudo sobre o universo da Emetofobia. Fiquei muito interessada, comprei livros, fiz pesquisas, me tornei minha própria psicóloga.”

Daniela criou o blog “Minha Emetofobia”, que serve como um diário de suas experiências com a emetofobia.

Depoimento de Daniela em seu blog –  Postado em 14 de Abril de 2013

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