AlineM2

 

Sempre que o tema da conversa é fobia, sei que vou ser o centro das atenções por alguns minutos. Não tenho uma fobia dessas mais conhecidas: de aranhas, de multidões, de agulhas ou social. Tenho fobia (ou medo, pânico, horror, pavor) de arroz.

É isso mesmo, arroz. Aquele cereal que todos os brasileiros comem no almoço, faça chuva ou faça sol, misturado ao feijão ou com strogonoff, com pirão ou moqueca, com queijo derretido ou misturado com a “sobra sortida” do dia, no famoso mexido. Ou, ainda, em forma de doce, com bastante canela. Arroz. Eu tenho medo de arroz. Um nojo profundo, uma repulsa sem explicação que já me levou a situações bizarras, como gritar e atirar no chão um prato de comida que tinha um único e minúsculo grão de arroz. E aguentar a cara de desprezo das pessoas ao redor quando sabiam que o motivo era “apenas” arroz.

Sabe arroz? Aquilo que todo-mundo-come-todo-dia e blábláblá?

Não sei exatamente como isso começou. Lembro que comia arroz quando crianças. E que, aproximadamente depois dos seis anos de idade, passei a desenvolver essa repulsa. Primeiro foi só a recusa em comer, depois a retirada sutil dos grãos do prato (já imaginaram catar todo o arroz de uma galinhada?), por último a aversão total. Não consigo comer arroz. Não consigo me imaginar comendo. Não me sento à mesa com grãos de arroz espalhados por ela.

Ao mesmo tempo, consegui desenvolver técnicas “ninja” de alimentação. Hoje já consigo conversar com alguém que está comendo arroz sem olhar para seu rosto, sua boca ou seu prato. Já consigo estar à mesa frente a uma travessa de arroz sem sentir vontade de sair correndo para vomitar no banheiro mais próximo. Não olho para a travessa. Olho para o horizonte.

Almoçar na casa de colegas de escola era sempre uma tortura. Em especial quando as mães faziam os pratos e os enchiam de arroz. Quando dizia que não comia arroz, começava um questionamento sem fim. Isso acontece até hoje. Em geral, a primeira pergunta é: “O que você come, então?”, como se arroz fosse a única comida possível no mundo. “Mas arroz é tão bom!”, completam. Pode ser, pro seu gosto e pro do universo inteiro. Pra mim, é uma das coisas mais repugnantes que existe. Prefiro matar uma barata a ter contato com arroz, encostar no arroz.

Meu irmão mais novo logo percebeu um jeito de me “vencer” em nossas discussões sobre qualquer coisa à mesa. Bastava dar uma mexida com a colher na travessa de arroz e eu me calava. Sim, ter fobia de arroz me trabalha em muitos aspectos. Já deixei de almoçar em alguns lugares porque havia arroz à mesa. Nunca mais comi galinhada ou arroz à grega. Risoto, nem pensar. Já me senti uma macaca de circo, quando todas as atenções se voltam à “menina que não come arroz”. “Que bizarro!”, dizem. E dá-lhe mais uma sessão das mesmas perguntas de sempre.

 

Por Aline Monteiro Homssi.

 

A fobia alimentar (FA), ou fagofobia, é caracterizada pelo medo excessivo de comer ou engolir, levando à recusa alimentar por mais de um mês. Pode ser desencadeada por um evento traumático em que tenham ocorrido vômitos ou sensação de asfixia provocada pela comida, ou ainda por uma questão emocional. É mais comum o início na infância (principalmente em mulheres), após alguma infecção ou evento que tenha cursado com vômito associado. A vivência traumática desse episódio pode evoluir com recusa alimentar.

Este distúrbio não é encontrado nas classificações oficiais de psiquiatria e há poucos relatos na literatura científica, porém acomete e aflige pessoas no mundo todo. A distinção entre Fobia Alimentar e Anorexia Nervosa é de suma importância, já que ambas provocam recusa alimentar e perda significativa de peso, mas exigem abordagens terapêuticas um pouco diferentes.

Fonte: Fobia alimentar associada à magreza: Um diagnóstico diferencial com anorexia Nervosa. Artigo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria. vol.58 no.3, Rio de Janeiro 2009. Autores: Vera Garcia da Silva e Marcelo Papelbaum

(Via Mind-web)

 

Posts relacionados: