Por Vanessa Barbosa

Reuters

O rastro de destruição deixado pelos recentes terremotos no Nepal são, apenas, a parte mais visível dos efeitos nefastos do desastre natural. As sequelas psicológicas são a parte oculta, mais difícil de recuperar.

Na esteira do aumento das catástrofes naturais das últimas décadas, como enchentes, furacões, incêndios, tremores de terra e toda sorte de desastre induzido ou não pelo homem, pesquisadores de todo o mundo têm estudado os mecanismos de defesa e resposta dos seres humanos a esses fenômenos

Há provas contundentes de que tais eventos podem levar a uma variedade de problemas de saúde mental, como transtornos de estresse agudo e pós-traumático.

Afinal, mesmo que uma pessoa não se machuque fisicamente, ela está sujeita a pagar um “pedágio emocional caro”.

Segundo a Associação Americana de Psicologia, as reações mais comuns incluem: sentimentos intensos e imprevisíveis; flashbacks; dificuldade de concentração ou de tomar decisões; quebra dos padrões de sono e alimentação; distúrbios emocionais em datas festivas, como aniversários; relações pessoais tensas; e sintomas físicos como dores de cabeça, náuseas e dor no peito.

Perdas humanas

As sequelas emocionais e mentais variam de pessoa para pessoa. Quem perde uma casa experimenta um sentimento diferente de quem perde um parente próximo ou amigo querido. Quem acumula perdas pode, naturalmente, sofrer mais intensamente e por um período mais longo.

Na esteira do terremoto no Haiti, em 2010, especialistas do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, investigaram os efeitos psicológicos do tremor sobre um grupo de 40 sobreviventes. As observações foram reunidas em um artigo publicado em 2013.

“Um total de 55% dos indivíduos apresentaram sintomas de depressão enquanto 40% tinham sintomas de ansiedade. Os indivíduos que perderam um membro da família eram cinco vezes mais propensos a desenvolver sintomas de ansiedade e depressão do que aqueles que não perderam”, escrevem os autores.

O fator surpresa

Terremotos se diferenciam dos demais desastres pelo fator surpresa, o que pode aumentar o sofrimento psicológico.

Ao contrário de outros eventos (por exemplo, furacões e certos tipos de inundações), os terremotos ocorrem sem praticamente nenhum aviso.

Segundo os cientistas, esse fator limita a capacidade das vítimas fazerem ajustes psicológicos que possam facilitar algum enfrentamento da situação.

Esta relativa falta de previsibilidade também diminui significativamente os sentimentos de “controlabilidade”, já que, normalmente, não há aviso prévio ou possibilidade de preparação.

Uma pessoa pode se refugiar em áreas mais altas durante uma inundação, ou instalar proteções adequadas em casa contra tempestades que precedem um furacão. No caso de um terremoto, não há preparo prévio.

Profissionais de saúde que ajudam no acompanhamento de vítimas e sobreviventes de desastres, em geral, trabalham na restauração desse senso de confiança e estabilidade.

Estudos recentes indicam que um tratamento comportamental que envolva principalmente o incentivo para a exposição à situações que geram medo são altamente eficazes na recuperação do trauma ocasionado por tremores de terra.

Perda dos meios de subsistência

A perda dos meios de subsistência também deixam deixar graves sequelas, como mostra um artigo publicado no Journal of the American Medical Association (Jama).

O tsunami que atingiu o sul da Tailândia, em 2004, afetou zonas costeiras fortemente dependentes das indústrias pesqueiras e turísticas, que ficaram paralisadas após o desastre.

“Em nossa pesquisa, a perda dos meios de subsistência foi significativamente associada com sintomas de transtorno pós-traumático, ansiedade e depressão”, dizem os autores.

(Via Exame)

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