Por Leticia Constant

Foto: Benoit-caen

Foto: Benoit-caen

Na França, os atentados terroristas contra o jornal satírico Charlie Hebdo e a tomada de reféns no supermercado judaico Hyper Casher no dia 7 de janeiro deixaram 20 mortos. Entre eles, cinco caricaturistas famosos e familiares aos franceses, presentes no dia a dia com suas charges em jornais, livros e participações em programas de televisão. Passado o drama, indagamos qual será o impacto de tanta violência sobre a população francesa e o que fazer diante desta realidade.

O psiquiatra Geraldo Ballone, professor na PUC por 23 anos, coordenador do site Psiqweb e autor do livro “Da emoção à lesão”, fala sobre as consequências psicológicas dos atentados.

“Há dois tipos de pessoas expostas à violência: tem aqueles que viveram o fato diretamente e sobreviveram ao episódio, e tem aquelas expostos indiretamente, que somos todos nós, que tomamos contato através da mídia, da imprensa, do atentado, da natureza do ato considerado um terrorismo”, explica Ballone, analisando que as pessoas que têm uma exposição direta sofrem um transtorno de stress pós-traumático, que é um transtorno bastante sério, bastante incômodo, que compromete muito a qualidade de vida emocional das pessoas, aumentado significativamente o grau de ansiedade, de apreensão e de medo. As pessoas predispostas à depressão também podem desencadear episódios depressivos. “Então, o impacto emocional na população é bastante expressivo”, analisa o psiquiatra.

 

 Papel das mídias

A exposição ininterrupta de imagens dramáticas nas mídias como os atiradores saindo com suas metralhadoras da sede do Charlie Hebdo ou os reféns desesperados do supermercado judaico não acabarim reforçando o medo e a insegurança?

“Não tenha duvida nenhuma”, responde o doutor Ballone, realmente o bom senso recomenda que os opostos são perigosos. Para ele, se a mídia não noticia nada pode colocar em risco a população, principalmente em meio urbano. Mas se, por outro lado, as notícias são exacerbadas, a população também pode chegar a um estado de paranoia, ou seja, qualquer pessoa passa a ser suspeita.

Ansiedade e trauma emocional

“Evidentemente, a ansiedade aumenta muito. O atentado em questão foi contra um meio de mídia, da imprensa local, bastante famoso, então, os profissionais da área podem se sentir realmente ansiosos. Quanto mais se noticia isso, tenho a impressão que a memória da população fica sendo ativada a cada instante. As pessoas perdem a sensação psicológica de segurança e há, inquestionavelmente, uma perda de qualidade de vida emocional da coletividade”, diz Ballone.

Franceses e sensação de segurança

Admitindo o terror dos atentados em Paris, o professor lembra que a disposição à violência na população em geral na França é pequena em relação a outros países. Na Argélia, por exemplo, 92% da população já esteve confrontada a um episódio direto de violência; no Camboja, 81%, no México, 34%.

“Tenho a impressão de que na França o número fica bem aquém, mas isso não importa, a questão da insegurança é subjetiva. Mesmo assim, acho que esses números devem ser levados em consideração do ponto de vista racional; as pessoas podem admitir que houve atentado, é algo terrível, desumano… Entretando, se colocarmos isso em forma de estatística, esses números podem conduzir a população a ter uma sensação de segurança ou ter uma qualidade de vida emocional satisfatória”.

O psiquiatra lembra que a avalanche de notícias que a imprensa divulga sobre o ocorrido passa a impressão que a frequência dos atentados seja maior. E apesar de tudo isso ser muito desgastante, Ballone acha que a exposição do povo francês à violência não é das maiores do mundo, muito pelo contrário; para ele o Estado é forte e pode dar a seus habitantes uma sensação de segurança importante.

(Via Rfi Português)

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