Karina Abrei diz não ter aversão a risco, mas tem medo de dirigir Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Karina Abrei diz não ter aversão a risco, mas tem medo de dirigir | Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Se a hipótese de ficar confinado em um avião, diante de um animal peçonhento ou suspenso em uma grande altura lhe causa algum tremor, náusea ou nó na garganta, pode ser que você apresente um quadro de fobia. Adquirido por memória de nossos genes ou por influência do meio, este tipo de medo chega ao ponto de desencadear uma série de reações no corpo.

A origem do medo é uma associação de fatores genéticos e ambientais. Também pode estar ligado a uma situação traumatizante. Psicóloga clínica e professora da Ulbra e da Unisinos, Martha Ludwig explica que há vários tipos de medos — entre eles a chamada fobia específica, um transtorno psicológico que gera sensação de vulnerabilidade, e a fobia social, que é o medo do julgamento do outro.

Martha garante que encarar uma fobia é algo libertador. Quando o indivíduo consegue enfrentar o objeto que lhe causa pânico, diz a psicóloga, fica mais autoconfiante.

— A perspectiva que se abre na vida quando se supera um medo é muito grande — enfatiza.

Apesar de seus efeitos negativos, o medo é uma reação natural do ser humano e, em algumas situações, é até saudável. Psiquiatra da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), Tiago Crestana lembra que o medo serve de alerta de que alguma situação de perigo pode estar se aproximando. Serve, portanto, para proteger as pessoas, e a sua ausência total pode ser maléfica, complementa a psicóloga Márcia Copetti. É o caso daqueles que correm riscos desnecessários, como pular de paraquedas em um dia de tempo ruim.

Segundo Crestana, a cultura também pode ser fator de influência. Por exemplo, pessoas que vivem em áreas com altos índices de violência urbana terão mais medo de ser assaltadas do que aquelas vivendo em algum local com menor índice. Alguém que vive em uma zona assolada por guerras ou terrorismo terá mais medo em relação a estes eventos do que outras vivendo em diferentes localidades.

Fundadora do Centro de Psicologia Especializado em Medos, em Curitiba, a psicóloga Neuza Corassa destaca que entre os mais corriqueiros estão o medo de assalto, de não ser bom na profissão, de envelhecer ou não garantir boa condição financeira na velhice, por exemplo. Segundo a especialista, a ciência evolui no tratamento, mas ainda peca em identificar as razões de seu surgimento:

— Sabe-se que a fobia está gravada na amígdala cerebral (estrutura do cérebro que desencadeia funções como a de sentimento de proteção), sabe-se como corrigir, mas ainda não se tem conhecimento de como foi originada. Pode ser aprendida por experiência, mesmo sem ter a lembrança, ou a partir de uma situação presenciada, até um relato, em que a pessoa toma para si.

As diferenças

Medo — É uma emoção natural do ser humano. Atua como um aliado, protegendo-nos e funcionando como um sinalizador para precaução contra perigos reais.

Fobia — É uma espécie de medo acentuado, excessivo, desmedido, na presença ou previsão de encontro com o objeto ou situação que causa ansiedade em um grau elevadíssimo.

Os tipos
Fobia específica — Medo acentuado, persistente ou irracional, revelado pela presença ou antecipação de um objeto ou situação fóbica. As pessoas afetadas tendem a evitar ativamente o contato direto com os objetos ou situações, e em casos severos qualquer menção ou retrato deles. Exemplos: medo de avião, elevador, altura, aranha, escuro, cobra.

Fobia social — Caracterizado por manifestações de alarme, tensão nervosa, medo e desconforto desencadeadas pela exposição à avaliação social. Exemplos: medo de sair para a rua, estar em público, de julgamento externo.

Vítima da síndrome do carro na garagem
Ela dirige uma empresa, mas tem verdadeiro pavor ao pensar em dirigir um veículo. Trabalha como consultora de Recursos Humanos, onde auxilia muitos profissionais a encontrarem seu caminho. Mas para se deslocar, prefere tomar condução terceirizada. É assim que a empresária Karina Abreu, 31 anos, define-se: uma empreendedora com medo da direção.

— É algo bem misterioso e vai totalmente contra meu perfil, pois não tenho aversão a risco.

Karina conta que já tentou aprender a dirigir, mas a experiência foi tão desastrosa que desistiu: o carro apagou logo de início, deixando-a muito envergonhada.

A razão que faz de Karina uma das vítimas da “síndrome do carro na garagem” (expressão que vem do livro Vença o Medo de Dirigir, da psicóloga Neuza Corassa, lançado em 1996 e atualmente na 13ª edição) encontra-se muito mais na autoexigência do que no julgamento externo. A psicóloga Márcia Copetti explica por que este é um típico medo voltado à avaliação alheia.

— A pessoa não se autoriza a errar, fica paralisada com a possibilidade de o carro apagar. A pressão externa torna esse um medo diferenciado, de um perfil de ansiedade generalizada — comenta a especialista.

Para solucionar o problema, o tratamento pode ser bem rápido, e ter bons resultados com um período de terapia que vai de um a três meses. Técnicas de controle da ansiedade, da respiração e de relaxamento são muito indicadas, segundo Márcia. Ela explica que o carro chefe da ansiedade é a “evitação” (o fato de evitar). Por isso, o ideal é enfrentar a situação aos poucos. Ir acompanhada, sentar no carro, depois ligar, dar a partida, percorrer uma distância curta.

Nunca tendo vivido situação de estresse no trânsito, a administradora Karina explica que o risco de deixar o carro apagar, estacionar mal, atrapalhar os outros motoristas é o que mais atrapalha na hora de pegar o volante. Também não gosta de se sentir pressionada, o que é difícil diante do caos do trânsito das grandes cidades.

Embora se vire bem com meios de transporte alternativos, como ônibus, táxi e lotação, entende que essa dificuldade diminui sua autonomia. Por isso, planeja encarar — no próximo ano —, o desafio de conduzir um veículo. Vai recorrer ao primo instrutor de autoescola e pedir que seja em um bairro mais tranquilo, até pegar o jeito e ter segurança.

— Acho que esse é um medo superável, que ainda não foi devidamente enfrentado. Mas sempre digo que vou evitar a Avenida Lucas de Oliveira, tenho medo que o carro apague. Só de pensar, começo a suar. Pavor paralisante — confessa.

Elevador, borboleta, avião e lua cheia

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Elisabete Bueno dos Santos tem medo de avião, elevador, borboleta e lua cheia (Foto: Ronaldo Bernardi/ Agencia RBS)

Não é à toa que a professora aposentada Elisabete Bueno dos Santos mora no terceiro piso de um prédio com sete andares. Toda vez que tem de levar os cachorros para passear, aproveita a proibição de animais no elevador como desculpa para ir de escada. Mas a companhia dos amigos caninos é só um disfarce para o medo que tem de ficar trancada, afinal, não pode nem pensar na luzinha piscante do elevador que seu corpo entra em estado de alerta.

— Sinto frio na espinha, minhas mãos começam a tremer, meu coração dispara, me falta ar — descreve.

O medo não é desde o nascimento. Bete já pegou muito elevador na vida, mas conforme o tempo passou, sua aversão a lugares fechados aumentou. Os filhos brincam com a situação e insistem para superar. Mesmo assim, a sensação de claustrofobia lhe impede de relaxar quando anda de avião ou adentra uma sala pequena e sem janelas.

— Acho que vou ficar presa. Fico em pânico, não consigo nem me mexer — recorda a aposentada.

O problema nunca foi tratado, e incomoda Bete mais do que ela gostaria. Quando teve a oportunidade de viajar para Salvador, na Bahia, por exemplo, passou sufoco para se manter tranquila dentro da aeronave:

— Aquilo ali para mim é o fim do mundo. Depois que entrei, não tem jeito, fico paralisada e, ao mesmo tempo, com raiva desse sentimento que me faz perder oportunidades — desabafa.

Além do elevador e do avião, outros temores inusitados fazem parte do imaginário da professora: borboleta e lua cheia. Para nenhum deles, possui explicações. Só sabe que nunca teve experiências negativas, marcantes ou traumáticas com esses itens.

— Minha mãe dizia que eu devo ter sido picada por um bicho em noite de lua cheia — diverte-se, tentando amenizar o papo.  Aos 55 anos, Bete se questiona como enfrentará as escadas quando ficar idosa. Até lá, pretende ter vencido a fobia que lhe enclausura.

Psicólogos recomendam técnicas e estratégias para lidar com os medos

— Enfrentar o medo aos poucos 
— Fazer uma aproximação gradual do objeto causador do medo
— Ver fotos, filmes, falar sobre o assunto
— Fazer respiração profunda diafragmática e relaxamento
— Escolher o medo e fazer um plano de trabalho para superá-lo
— Praticar uma atividade física, para liberar endorfina, substância química que causa prazer e relaxamento e que neutraliza a noradrenalina, de ação direta no humor e na ansiedade, sono e alimentação
— Escolher pessoa de confiança para conversar sobre o medo
— Procurar um especialista. Há tratamentos que incluem psicoterapias até o uso de medicação.

 

>> Entrevistados contam quais são os seus maiores medos. Confira em vídeo.

 

Fonte: Zero Hora

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