16060353Diretor da Unidade de Trauma, Estresse e Desastre do Departamento de Psiquiatria da Universidade Católica do Chile, o médico Rodrigo Figueroa mergulhou nos últimos anos nos mistérios da mente humana diante de tragédias que atingiram seu país.

Quando 33 mineiros se viram soterrados na mina San José, em 2010, sua equipe foi chamada pelo governo para tratar a saúde mental dos trabalhadores presos a 700 metros de profundidade. Meses antes, ele havia atuado no tratamento das vítimas do terremoto seguido de tsunami que varreu parte do litoral chileno.

Aos 37 anos, o psiquiatra, que nas horas vagas toca em uma banda de rock, é um dos maiores especialistas em trauma e estresse pós-traumático na América do Sul.

Em entrevista a ZH, durante passagem pelo Estado para participar de um evento de psiquiatria na Ulbra Gravataí, em novembro, Figueroa falou sobre as feridas do corpo e da mente, traçou relações entre tragédias como o terremoto no Chile e a boate Kiss, em Santa Maria, e explicou como o ser humano, apesar de tudo, é capaz de encontrar forças para a superação.

Logo após o acidente na mina San José, em 2010, os chilenos passaram 20 dias sem saber se os mineiros estavam vivos ou mortos. Como foi o trabalho com as famílias naquele período de incertezas?
Estive na mina San José antes e depois da notícia de que estavam vivos. O governo contratou nossos profissionais com o objetivo de dar apoio psicossocial aos familiares. Fomos ao deserto do Atacama também para apoiar os profissionais de saúde mental, assistentes sociais, para que conseguissem levar adiante a operação de resgate. Orientamos sobre os problemas que enfrentariam e onde deveriam colocar foco.

Qual era a principal dificuldade?
Organizamos e definimos prioridades. Por exemplo, a entrega permanente de informação é fundamental para diminuir a ansiedade das pessoas que esperam alguém que não sabem se está vivo ou morto. Divulgávamos informações sobre os trabalhos de resgate em intervalos regulares de tempo, não apenas quando algo novo aparecia na imprensa.

Era uma maneira de evitar os boatos que surgiam?
Exatamente. Um dos fatores que mais geram estresse em uma comunidade afetada por emergências é a incerteza e o surgimento de boatos.

Logo após o resgate, o senhor criticou o envio de vídeos de família e outros objetos, como Bíblias, no período em que os mineiros estavam soterrados. Por quê?
Não é bom quando os dispositivos de ajuda assumem um papel paternalista. É uma atitude muito comum, quando alguém quer ajudar, muitas vezes comete erros devido a um impulso por auxiliar muito difícil de conter.

Para amenizar a culpa, por exemplo?
Não, por compaixão mesmo. Mesmo com esse desejo genuíno de ajudar, às vezes, deixamos de ver a vítima como sujeito e a transformamos em objeto dessa ajuda. Nesse momento, passamos a violar os direitos da pessoa e sua autonomia. E isso pode gerar mais danos do que o incidente original. Muitas vítimas, quando perguntadas sobre o que mais lhes afetou em situações desse tipo, elas citam, por exemplo, o caso de um bombeiro que não lhes perguntou se queria que lhes tirassem a roupa. Com os mineiros, censuraram trechos das cartas enviadas pelas famílias. Os dispositivos de saúde recebiam as cartas, as liam e, se encontrassem informações que julgavam prejudiciais aos mineiros, as apagavam. O que mais afeta a vítima é a percepção de que lhes estão ocultando alguma informação.

Isso poderia gerar a ideia de que não estavam lhes dizendo toda a verdade com relação às famílias, por exemplo?
Os mineiros descobriram que estavam lhes censurando informações, e houve um motim contra os dispositivos de ajuda.

Em uma situação de tragédia como essa, seguida de confinamento, como o cérebro reage diante da incerteza de que a pessoa vai sobreviver?
Mais do que apenas o cérebro, o corpo como um todo reage por meio de uma dinâmica chamada síndrome geral de adaptação. Nas primeiras horas, há uma sensação de desajuste, a pessoa tenta descobrir se braços e pernas estão em boas condições, busca saber se há comida ou não, tenta entender a gravidade da situação. Posteriormente, inicia-se uma fase na qual a comunidade e o sistema se organizam para enfrentar a situação. As habilidades, aptidões, poder de concentração podem funcionar até melhores do que em uma situação normal. E chega-se a um período de resistência, que pode durar até um mês, onde a organização aumenta muito, a pessoa também está muito resistente. Mas, se não há uma resposta positiva, o resgate, vem a fase seguinte, da desilusão. E aparecem as patologias e enfermidades graves, tanto físicas quanto mentais.

Durante os meses de resgate, como se comportavam as famílias?
Eram grupos bastante coesos, determinados a permanecer nos arredores da mina, próximos de seus familiares. Demandavam informação. Não havia muitas pessoas com problemas psicológicos graves, como ocorre normalmente nos desastres. A norma é a resiliência: seis de cada sete pessoas não desenvolvem sequelas emocionais de um evento traumático ou um desastre. Mais ou menos 14% ficam com alguma sequela. A grande maioria das pessoas demonstra, em situações de desastre, comportamentos muito resilientes.

Debaixo da terra, Luis Urzúa acabou se tornando o líder dos 33. Como surge a liderança nessas situações?
Em períodos de crise, é normal a aparição de líderes muito fortes. Veja, por exemplo, os uruguaios que caíram na Cordilheira dos Andes: havia Nando Parrado. Podem ser líderes positivos ou negativos. Hitler surgiu como líder na Alemanha em um período de grande crise social, após a I Guerra Mundial. Giulliani, (Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York), durante o 11 de Setembro. Os períodos de crise são propícios para o surgimento de líderes, e os políticos sabem disso. Por isso, normalmente querem estar em frente às câmeras. As pessoas buscam em seu líder uma figura de apego, que lhes regule a ansiedade. Um mau líder pode levar o sistema social à destruição. Um bom líder pode mitigar muito o impacto (de uma tragédia). Isso também acontece nas empresas. As crises financeiras ou corporativas podem gerar desvalorização de uma empresa ou revalorização segundo a efetividade com que o líder atua na crise.

Em que se diferencia a forma de liderança em situações de desastre de uma empresa em crise?
A liderança vai depender da situação. Há certas situações que exigem certos tipos de liderança e outras que exigem competências diferentes. Em situações de crise, espera-se um líder muito visível, presente, bem diretivo. Não um líder que compartilhe muito as decisões, porque ele precisa tomá-las rapidamente. Não é o mesmo tipo de liderança em uma situação rotineira. Por exemplo, há certas empresas que precisam melhorar seu clima no ambiente de trabalho. Aí, são necessários líderes transacionais. Ao contrário, em momentos de crise, exige-se um líder mais autocrático, com uma relação muito forte com a comunidade e com um forte sentido em transmitir esperança diante da crise.

Voltando aos mineiros, mais de dois anos depois, como eles estão hoje?
Não tenho notícias diretas, o tratamento hoje está sob responsabilidade de hospitais que fazem a cobertura de acidentes de trabalho. Tenho lido na imprensa que muitos continuam com problemas de saúde mental, alguns graves.

Soterrados, os mineiros formaram uma coesão muito forte, mas houve momentos de ruptura. Por quê?
É natural que, diante da desesperança e do cansaço, apareçam lideranças divergentes. A comunidade se fragmenta em torno desses líderes. E a questão dos pactos. No caso da tragédia com o avião dos uruguaios, nos Andes, eles fizeram um pacto, que durou muito tempo, de não falarem sobre canibalismo. Os mineiros também teriam feito um pacto de não falar o que ocorreu. Fazem pactos, fazem rituais. É natural. Há períodos em que aparece uma efervescência religiosa, a fé aumenta muito. São maneiras de aumentar a coesão social, buscam uma identidade que dê união ao grupo.

A religião ajuda a manter a mente saudável diante de uma catástrofe?
A religião busca dar um sentido ao sofrimento. Um sentido à espera. É uma resposta que acalma, que consola. Nesse sentido, a religião é protetora.

Seis meses antes do acidente na mina San José, o senhor trabalhou com as vítimas do terremoto no Chile. Como foi?
Cerca de 75% da população do país foi golpeada fortemente pelo terremoto. Após a tragédia, fizemos um estudo e concluímos que 11% da população adulta do país sofria de provável estresse pós-traumático, três meses depois do terremoto. Esse percentual chegou a 25% nas regiões em que foi declarado estado de catástrofe. Sabe-se por estudos internacionais que, das pessoas que desenvolvem estresse pós-traumático no primeiro ano, um terço continua com os sintomas uma década depois. Portanto, é provável que um grupo importante de pessoas tenha desenvolvido sequelas crônicas, como transtorno de pânico, ansiedade, fobia, depressão e outras.

Como deve ser tratado o trauma de uma nação ou de uma grande comunidade, como no caso do terremoto no Chile, o 11 de Setembro americano e mesmo aqui no Rio Grande do Sul, que viveu há um ano sua pior tragédia, a da boate Kiss?
O tratamento é diferente no período imediato ao trauma e depois de alguns meses. Também é diferente o que se faz para toda a comunidade e no caso daqueles indivíduos com sequelas clínicas. Nós operacionalizamos esse modelo em uma publicação em 2010, meses antes do terremoto. Uma coincidência. Esse modelo estabelece intervenções em cinco níveis. Número 1: operações de divulgação de informações, por meio dos veículos de comunicação, com o objetivo de diminuir a incerteza e informar onde buscar ajuda e controlar rumores. O nível 2 é o apoio humanitário no lugar da emergência: abrigo, café, alimento, hidratação e segurança às pessoas afetadas. E muita informação. Nível 3, apoio aos médicos que dão a atenção primária, para que sejam capazes de identificar vítimas que podem estar com problemas psicológicos mais sérios. O quarto nível são tratamentos formais, centrados no trauma, com psicólogos e psiquiatras. Por último, um quinto nível, para pessoas que não respondem aos anteriores e que desenvolvem estresse pós-traumático. São pessoas que precisam de tratamento especializado, em centros. Há um processo contínuo de cuidados, de gerais a especializados.

As pessoas podem desenvolver estresse pós-traumático anos depois do trauma que os originou?
Sim. Existe o estresse pós-traumático retardado, que se manifesta mais em casos de vítimas de abuso sexual, especialmente na infância, quando a lembrança é reprimida. Tenho casos impressionantes. Por exemplo, uma mulher que foi abusada na infância por seu pai e que reprimiu a recordação por muitos anos. Já adulta, teve seu primeiro filho, um homem, e não houve nenhum problema. Quando ela teve o segundo filho, uma mulher, apareceu o medo de que a menina sofresse o mesmo mal. Isso ativou o trauma.

Falando de traumas coletivos, no caso de uma cidade como Santa Maria, como superar? Falar sobre o assunto ajuda ou atrapalha?
É preciso falar sobre o trauma. As comunidades em geral tendem a sair sozinhas da crise, elas se organizam para manter a capacidade de garantir sua identidade. Os sistemas sociais e individuais estão preparados normalmente para manter essa identidade frente aos golpes da vida. À medida que se permite às comunidades ritualizarem certos eventos, por meio de um memorial ou atos de recordação, por exemplo, essas comunidades saem fortalecidas.

Em Santa Maria, há um debate sobre o que fazer com o prédio da boate Kiss. Na sua opinião, é melhor mantê-lo ou destruí-lo e transformá-lo em um memorial?
Eu trataria de saber o que a comunidade prefere. Mas, como norma geral, ignorar o trauma, não falar sobre ele, não existe. As pessoas sempre vão carregar o trauma. Porque, no fundo, o trauma necessita ser reorganizado. Por exemplo, quando há um acidente de trânsito, nos primeiros dias, você pensa todo o tempo: lembra as imagens, sente o mesmo que sentiu naquele momento. Mas o sistema busca digerir este trauma. Não é algo que possamos escolher. Então, tratamos de fazer organizadamente, dando um sentido.

Um estudo da revista Science mostrou, recentemente, que o cérebro é capaz de apagar memórias desagradáveis. O senhor concorda com essa capacidade do ser humano de superar um trauma e até de apagar da memória um momento ruim?
As cenas más não se apagam nunca. Os eventos traumáticos sempre ficam armazenados no cérebro. O que pode ocorrer é que sejam descontextualizados. A lembrança traumática, nas horas e nos dias seguintes, fica armazenada como se estivesse na memória desfragmentada de um computador: imagens, fragmentos que não têm uma ordem cronológica muito clara, que não estão sujeitos às regras da lógica. E tem efeitos no corpo, as mãos ficam úmidas, o coração, acelerado. Conforme passa o tempo, o processo natural do cérebro é reordenar a lembrança, incorporar aspectos mais positivos, que podem estar presentes no momento do trauma, mas que não se presta atenção nos momentos iniciais. No caso de uma pessoa que tenha processado o seu trauma, duas ou três semanas depois, você pergunta: “O que você lembra daquele momento que te causou tanto sofrimento?” Ela vai lembrar, com certo distanciamento, de um bombeiro que lhe entregou café ou de pessoas que se aproximaram e cuidaram dela. Muda o pensamento, a reação do corpo, e são incorporadas lembranças de momentos positivos. Dizer que o cérebro apaga o trauma é incorreto. O que ocorre é que a lembrança traumática é reprocessada.

Dizem que as pessoas, em geral, saem mais fortes depois de um momento difícil: a morte de alguém, o fim de um relacionamento. Isso de fato acontece?
Eu diria que a maioria das pessoas sai igual. Resiste ao trauma. A maioria é resiliente. Entre os resilientes, há um grupo de pessoas que desenvolve crescimento pós-traumático, um fenômeno que se está estudando muito. Depois do trauma, a pessoa passa a valorizar mais as relações interpessoais, é capaz de hierarquizar melhor o que é importante e o que é secundário em sua vida, e dar-lhes um sentido mais transcendente, espiritual e filosófico. Essas pessoas reportam subjetivamente um maior bem-estar depois do trauma.

Pessoas resilientes têm mais sucesso profissional?
Uma das capacidades que se espera de um líder é que seja resiliente. Que seja capaz de aguentar golpes. Uma das coisas que está em discussão é se o crescimento pós-traumático é harmônico ou desarmônico. Uma das condições para ter crescimento pós-traumático é ter tido estresse pós-traumático. Ou seja, sem que se passe pela dor, não haverá felicidade. Ou algo assim…

O senhor concorda que, sem sofrimento, não há felicidade?
Não… (Risos) Em termos gerais, não. Se olharmos globalmente, os traumas aumentam a probabilidade de infelicidade, psicopatologia, mas o que acontece é que algumas pessoas, após o estresse pós-traumático, conseguem desenvolver esse crescimento. Batman e Homem-Aranha são caricaturas muito interessantes de um fenômeno do trauma. A vítima do trauma normalmente busca se isolar do mundo, como Batman ou Homem-Aranha, que vivem em seus próprios mundos. Estão atormentados por recordações do trauma, Batman, por exemplo, com os morcegos, a morte de seus pais. Algumas vítimas são capazes de colocar todas essas mudanças a serviço da comunidade. Batman é alguém que teve um crescimento pós-traumático. Porque, depois do trauma, conseguiu sair mais forte. O exemplo mostra como o crescimento pós-traumático é desarmônico. Veja o caso de um empresário, um homem que faz, cujos pais morreram muito cedo, e ele precisou trabalhar desde pequeno, é natural que tenha desenvolvido uma personalidade muito guerreira. Mas pode ter em sua vida íntima uma incapacidade de desenvolver relações afetivas satisfatórias.

Por falar nisso, no mundo atual as pessoas trabalham muito e têm pouco tempo para as relações pessoais e para ser felizes. O que é a felicidade para o senhor?
A felicidade significa ter satisfação em diferentes áreas: qualidade nas relações interpessoais, familiares, tempo para o desenvolvimento de interesses próprios, artísticos, esportivos, uma renda pessoal ou disponibilidade de recursos financeiros para poder construir a vida, qualidade de casa mínima, um emprego minimamente aceitável, seguro. O índice de qualidade de vida, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é constituído por esses elementos. Todos os índices apontam para o mesmo sentido: educação, saúde e economia. Agora, o peso que cada um dá a cada um deles é variável. Cada comunidade, pela sua cultura, vai calcular. Para mim, felicidade é um equilíbrio. Não é possível ser feliz com excelentes relações familiares, com um bom emprego, se não tenho o mínimo nível econômico. Porém, posso ter todo o dinheiro do mundo e não ser feliz, se vivo sozinho, em um entorno onde existe criminalidade e não posso sair à rua.

 

Fonte: Zero Hora

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