Diálogo é maneira de evitar excessos, comuns nesta etapa de conclusão do Ensino Médio

por Bruno Felin

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Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

É Enem, viagem a Porto Seguro, provas finais, e do último ano na escola, dúvidas sobre o destino das férias de verão, vestibular, quem sou eu, qual profissão guiará minha vida para sempre. Caramba, faltam semanas para a festa de formatura do colégio!

A cabeça dos adolescentes do terceiro ano do Ensino Médio só pode estar a mil — os mais velhos sabem como é, os mais novos fantasiam. Nesse caldeirão de sentimentos, com cérebros ainda em formação, os questionamentos pipocam. Entre eles, certamente: “E aí, o que vamos beber na festa?”.

Refrigerante, água, suco, energético, vodca, cerveja, whisky, água de coco? Independentemente da escolha, são dúvidas inevitáveis para a geração que está prestes a chegar à maioridade — e também para os pais, claro. E é fundamental que essas dúvidas apareçam, de preferência também em casa, mas numa boa, jogo limpo.

É o que pensam especialistas que convivem diariamente com essa gurizada, que mesmo sem idade legal para beber, já se acha experiente. Afinal, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), publicado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 2012, metade dos brasileiros entrevistados disse ter provado bebidas alcoólicas entre 12 e 14 anos e 41% entre 15 e 17 anos.

— É um desafio tratar esse assunto. A mensagem que eles não querem ouvir é que não podem beber, mas somos obrigados a dizer. Às vezes, funciona mais conscientizar os pais do que os adolescentes — afirma Thiago Pianca, psiquiatra do Hospital de Clínicas.

Segundo ele, muitos pais são responsáveis diretos por esse tipo de comportamento, financiando e comprando a bebida. Embora fatores sociais e históricos sejam bastante relevantes, para Pianca há uma ideia muito difundida entre os pais de que “não dá nada” beber. Essa concepção chega aos filhos, que se sentem autorizados.

— O que mais ouvimos é “meu filho é consciente, sabe os limites dele”, mas não é verdade. Não estão neurologicamente preparados para isso e, por mais que sejam informados, a maioria não se convence. São os responsáveis, os adultos, que não podem deixar que eles se excedam — observa.

NA PORTA DA FESTA, UNIÃO DE ESFORÇOS

O médico faz parte do Fórum Permanente de Prevenção ao Consumo de Bebidas Alcoólicas por Crianças e Adolescentes, formado em 2011 e coordenado pela procuradora de Justiça Maria Regina Fay de Azambuja, que reúne pais, escolas e professores, médicos, policiais e produtores de festas.

O grupo discute formas de minimizar os riscos a que os adolescentes são expostos quando bebem e, desde 2012, envia equipes para dar suporte em frente às formaturas. Neste ano, um ônibus do Ministério Público (MP) estará em frente a seis delas, prestando suporte médico, apreendendo bebidas e tentando coibir a venda. Também dispõem de um bafômetro, e os jovens embriagados só são liberados com a presença dos pais.

Em 2009, o MP atuou junto às produtoras para evitar que as bebidas fossem vendidas dentro da festa, o que acabou transferindo o problema para o “esquenta”. É o momento entre a cerimônia e a ida ao clube, que passou a ser, via de regra, marcado por excessos.

— A partir daí, percebemos que deveríamos chegar na família, pois os pais não sabem os riscos que os filhos estão correndo. Também não queremos chegar nos adolescentes e dizer que é crime, mas mostrar que queremos protegê-los — conta a procuradora Maria Regina.

Porém, ela defende que o Conselho Tutelar comece a ser mais rígido ao avaliar os casos encaminhados pela equipe. No ano passado, a maior parte dos 70 registros foi arquivada — nestes, o conselho, segundo ela, entendeu que era um fato isolado na vida do adolescente.

Veja quais os efeitos:

141204 Cerveja CerebroPROBLEMA ANTIGO, MUITAS ABORDAGENS

Desde a criação do Fórum e do engajamento de diferentes escolas — que raramente se uniam em torno de um problema comum —, a situação parece ter melhorado sensivelmente. O tema aparece de forma mais frequente durante o ano, e os pais estão percebendo a necessidade de aderir à causa.

Comportamento complexo de lidar, beber nesta fase não é um problema novo. Há experimentação de álcool na adolescência desde sempre, é uma curiosidade natural. Mas a percepção de professores e líderes de escolas é de que está mais descarado, os jovens estão pouco preocupados com qualquer coisa que não seja a diversão.

Para Clarice Madruga, uma das coordenadoras do Lenad e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é necessário jogar limpo com o adolescente, de forma precisa, com evidências. E há um corpo abundante de pesquisas científicas mostrando que o abuso do álcool antes dos 20 anos faz muito mal ao cérebro e aumenta a vulnerabilidade para desenvolver depressão, transtornos de ansiedade e dependência química na vida adulta.

— O fato é que a tolerância ao álcool ainda não está estabelecida nesta idade e, assim, o adolescente vai se expor a riscos. As explicações devem ser baseadas em fatos, pois é uma geração capaz de ler um artigo científico e entender se estamos certos ou não — defende Clarice.

Maurício Erthal, Vice-Diretor do colégio Rosário, percebe que, na maior parte das vezes, os excessos são cometidos por visitantes das festas, não pelos formandos. Ele diz que os alunos estão mais conscientes, já não reclamam da presença do MP nem da falta de bebida dentro da formatura, como há alguns anos. A estratégia é convencê-los de que, antes de tudo, é importante ter uma memória boa daquele momento.

— A gente sugere para eles escolherem bem quem convidam, pois podem estragar o evento que é deles. Estamos lutando contra uma cultura, um comércio, uma droga lícita, mas que para eles não é. É uma pequena parcela que não garante uma memória feliz para si, temos de concentrar nossos esforços nessa minoria — diz Erthal.

Para Kátia Beppler Macagnan, coordenadora do Ensino Médio do Monteiro Lobato, a escola deve ajudar a conscientizar durante o ano, mas é preciso que os pais ajudem nesse engajamento pela conversa ao longo de todo o crescimento dos filhos, não tentando apenas reprimir antes da festa.

— Desejamos que eles tenham maturidade para decidir as coisas e isso começa na educação infantil, ao se trabalhar com limites. O adolescente é que fará as escolhas saudáveis ou não — afirma Kátia.

O fato é que entender essa geração não é simples, e a melhor forma de se aproximar é compreender seus anseios. É o que acredita Marcos Daudt, presidente do instituto Cuidar Jovem, que trabalha há anos com conscientização de adolescentes em relação ao álcool.

— Tem de estar presente. Os pais hoje precisam ser interativos com os filhos, tentar saber quais aplicativos eles baixaram, que músicas ouvem. Conectados que são, eles podem estar pensando em mil coisas que os pais nem sabem — alerta.

Lovani Volmer, diretora pedagógica da Escola de Educação Básica Feevale — Escola de Aplicação, de Novo Hamburgo, não acredita que a simples repressão tenha eco entre os jovens. Ela prefere quebrar tabus e conversar sobre o assunto.

— Se vejo alguém sonolento, chamo para tomar um café na minha sala. O fato de sermos abertos faz com que eles contem o que acontece e, aí sim, podemos ajudar — diz.

(Via Zero Hora)

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