por Alexandre de Santi* | Especial

Tímidos podem se formar na infância e em ambientes sociais hostis, mas pesquisas sugerem que a introspecção pode estar ligada a regiões do cérebro

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Introspectivo desde a adolescência, o carioca Bruno Maron precisou enfrentar, no início dos seus 20 anos, um desafio que lhe marcaria até hoje: uma dinâmica de grupo para conseguir um emprego em uma grande corporação. Em círculo, 50 pessoas se reuniram em duplas para fazer perguntas e testar o nível intelectual do concorrente. A pressão, para Maron, foi esmagadora.

— Eu fiquei atordoado. Por ser tímido e por participar de uma experiência em que todo mundo estava olhando, eu gaguejei, repeti as mesmas ideias e fiquei superabalado — conta o designer e quadrinista, hoje com 36 anos.

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Maron não conseguiu o emprego e culpa a timidez pela frustração. E ele não está sozinho: a inibição atinge grande parte da população (segundo estimativas, 50% das pessoas se consideram tímidas). Um estudo de 2008 da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFSCPA) e da Escola de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que a forma mais grave da timidez, conhecida por fobia social ou transtorno de ansiedade social (TAS), é um problema para quase um quarto dos jovens. Na pesquisa, os cientistas analisaram 493 alunos de duas escolas da Capital gaúcha — uma pública e outra privada. Cerca de 23% dos jovens foram diagnosticados com fobia social.

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Raízes também são genéticas e neurológicas

Embora seja muitas vezes encarada apenas como um traço de personalidade ou como resultado de ambiente hostil, a timidez também tem raízes genéticas e neurológicas. É o que a ciência tenta comprovar. Pesquisadores da Universidade de Vanderbilt, nos EUA, descobriram que tímidos como Maron têm alterações em duas regiões do cérebro: a amígdala, parte cerebral primitiva de onde surgem emoções como o medo e a ansiedade, e o hipocampo, ligado à memória. O estudo analisou 33 adultos inibidos e desinibidos, que foram expostos a fotos de rostos de pessoas desconhecidas repetidas vezes. Por meio de ressonância magnética, os cientistas perceberam que o hipocampo e a amígdala apresentavam uma atividade mais intensa. Esperava-se que ela diminuísse à medida que esses rostos se repetiam e se tornavam mais familiares. Foi o que aconteceu com os mais extrovertidos, mas não com os introvertidos. O estudo indica que os tímidos têm mais dificuldades em ficar à vontade com novos estímulos.

Quando o hipocampo sofre alterações, explica Patrícia Picon, especialista em transtornos de ansiedade e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), pode influenciar na retenção de mais memórias negativas do que positivas, gerando no indivíduo uma expectativa de que, no futuro, as coisas também vão sair errado. É o pessimismo característico dos tímidos, que tendem a achar que nunca vale a pena enfrentar riscos. Já a amígdala transforma os estímulos dos sentidos em respostas emocionais básicas, como medo e ansiedade. Nos tímidos, uma atividade constante da amígdala diante de rostos desconhecidos que se repetem sugere que os mais inibidos se sentem constantemente ameaçados. E, por isso, se retraem.

Situações constrangedoras

O cérebro não é o único responsável pelos rubores. O ambiente também contribui para a formação introspectiva dos tímidos, segundo Arnold Buss, psicólogo e um dos autores do livro Shyness, Perspectives on Research and Treatment (Timidez, Perspectivas em Pesquisa e Tratamento, sem tradução para o português). Há duas origens para a timidez, diz Buss. Uma, chamada de timidez medrosa, teria predisposição genética e se desenvolveria no primeiro ano de vida. A outra, chamada de timidez por consciência de si mesmo, surgiria durante o desenvolvimento da identidade, dos cinco aos 17 anos, e apareceria como resposta à socialização e ao desenvolvimento cognitivo, resumindo-se no medo de avaliação negativa dos outros.

— Tímidos têm preocupação exacerbada em pertencer a um grupo social. Esse é um recurso que todos temos e que usamos todos os dias, já que sempre fazemos uma certa questão de pertencer a um grupo. Tais comunidades trazem uma sensação de estarmos protegidos e de sermos benquistos. Mas tímidos se preocupam demais com essa questão — afirma Patrícia.

Que tipo de experiência poderia tornar uma pessoa tímida na infância? Segundo o psicólogo alemão Jens Asendorpf, autor de um estudo sobre as origens do sentimento, vivências sociais fracassadas nesta fase podem mudar a personalidade de alguém. Assim, se uma criança tenta se integrar aos colegas, mas é constantemente rejeitada, sua reação é criar um comportamento inibido e fechar-se para novas interações. Para o resto da vida.

O temperamento retraído de Bruno Maron se desenvolveu na infância, mas foi na faculdade que ele viveu o auge da timidez. No último semestre, quando muitos graduandos sofrem contra o trabalho de conclusão de curso (TCC), o designer aproveitou o momento para exorcizar a timidez. No trabalho, ele fez o esboço do que 10 anos mais tarde se transformaria no Manual de Sobrevivência dos Tímidos, um livro com dicas bem-humoradas para auxiliar os introspectivos a vencer em um mundo que favorece os extrovertidos.

— Sempre tive um medo muito grande de desagradar os outros. Você fica no “ensaio psíquico”, gastando energia só ensaiando as coisas que podem acontecer. Só que, quando você ensaia muito e pensa demais, você já perdeu a situação e acaba por se fechar para o mundo — diz o quadrinista.

Maron conta que venceu a timidez com ajuda do álcool, que o ajudava a se soltar. Mas os especialistas alertam para os riscos da estratégia. Um estudo feito pela PUCRS em 2005 evidenciou a relação entre fobia social e alcoolismo. Ou seja, se usada abusivamente, a técnica pode resultar em um problema ainda maior. Mais do que cerveja, escrever o livro ajudou o designer a racionalizar sobre seu comportamento, abrindo a porta para uma vida mais extrovertida.

*Colaborou Marcel Hartman

(Via ZH Vida)

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