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Ao mesmo tempo em que possibilita o acesso ao conhecimento e o crescimento da inteligência, a informação, por paradoxal que seja, pode levar o cérebro a um nível tão grande de exaustão que comprometa a memória e a cognição, estagnando a fluência do intelecto. O risco, motivo de estudos anteriores nos anos 1970 — o burnout corporativo —, volta com força agora devido ao excesso de dados do século 21. O problema é proporcional à velocidade do avanço da tecnologia e da propagação das informações, e resulta numa sociedade cada vez mais superinformada e estressada, impaciente, angustiada e sem foco.

— O nosso cérebro tem uma capacidade limitada de processamento. Não conseguimos desempenhar de maneira satisfatória um número elevado de tarefas, talvez sejamos capazes de fazer duas coisas só ao mesmo tempo. A memória é vulnerável e suscetível a influências — explica Lucas Alvares, orientador do programa de pós-graduação em Neurociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Os especialistas têm se esmerado para definir em que grau a memória e a cognição humana estão sendo alteradas pela enxurrada de informações que invadem todas as telas disponíveis. Ainda não há estudos conclusivos sobre o assunto e, de certa forma, a ciência busca uma maneira de acompanhar essa onda. Porém, em ao menos um ponto já existe consenso.

— Temos um limite. Quem fizer muitas coisas ao mesmo tempo vai deixar de lado alguma, não vai dar certo, pela sobrecarga. Ela pode até parecer estar com déficit de atenção, quando, na verdade, é vítima do estímulo de dados — diz o psiquiatra gaúcho Felipe Picon, que coordena um grupo de estudos sobre adições tecnológicas.

Para se ter uma ideia do poder de alcance da informação, mais de 30 milhões de pessoas estão ligadas em 2013 a três diferentes telas no Brasil. O número é quase o dobro em comparação com a França (19 milhões) e o Reino Unido (16 milhões). Segundo a empresa de pesquisa de mercado Ipsos, sete em cada 10 brasileiros assistem TV utilizando smartphones ao mesmo tempo, e o consumo semanal de TV, smartphone e computador, somados, chegam a 58 horas por pessoa (veja mais dados ao lado).

Na facilidade de busca e troca da internet reside um perigo: como identificar a linha tênue que separa o tolerável do abusivo? Para o diretor do Instituto Brasileiro de Medicina Comportamental, José Roberto Leite, é preciso estar atento aos sinais fisiológicos:

— Se eu percebo que meus órgãos sensoriais são atingidos e que estou estressado, seguramente meu organismo está sofrendo uma pressão. O abuso, com o tempo, produz reações dos hormônios corticoides, como hipertensão.

As sequelas mais comuns da superinformação são fuga de responsabilidades, isolamento, perda de atenção, desvio de foco, estresse, angústia, ansiedade e desinteresse por coisas ditas banais, como uma conversa com um amigo.

— Termos bastante acesso à informação é, em si, um fato positivo, mas como cada um lida com isso pode se tornar um problema. Leve em conta as pessoas que vivem com você, dê valor quando alguém próximo alerte que está passando dos limites — aconselha a psicóloga Rosa Maria Farah, uma das coordenadoras da Clínica Psicológica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

A disponibilidade de tanta informação tem feito com que muitas pessoas se tornem literalmente viciadas em dados. Elas checam os mesmos assuntos em diversos locais e não conseguem parar até dissecar vários meios e canais. São os dataholics.

— É só digitar um assunto no Google e aparecem dezenas e dezenas de hiperlinks. Sem eles, a pessoa acha que o conhecimento não fica completo. Na verdade, é desvio de foco — afirma Lucas Alvares.

 

Liberdade aos neurônios

Para o neurologista Ivan Izquierdo, coordenador científico do Centro de Memória da PUCRS, o cérebro ainda está dando conta do recado. Ele acredita que a cognição resiste bem ao assédio das informações por causa dos mecanismos de seleção cerebrais:

— Sabemos que o cérebro descarta o que é desnecessário com uma rapidez fantástica. É preciso que tenhamos neurônios livres, e por enquanto ainda temos. O cérebro revista todo seu arquivo com uma velocidade incrível. Dessa forma, nem tudo é armazenado.

Conforme Lucas Alvares, é importante criar filtros para a informação e se concentrar em um assunto de cada vez, esteja ele na internet, na televisão, no rádio ou qualquer outro meio. Em salas de aula e reuniões familiares, a regra deve ser a interação com a pessoa presente fisicamente.

— No momento que se está estudando alguma coisa e há agentes interferindo, o segundo estímulo vai prejudicar a consolidação da memória — conclui ele.

Brasileiros multitelas

> Mais de 30 milhões de usuários consomem mídia em três diferentes telas no Brasil — quase o dobro em comparação com a França (19 milhões) e Reino Unido (16 milhões)

> Sete em cada 10 usuários brasileiros assistem TV utilizando smarpthones ao mesmo tempo

> 63 milhões de brasileiros utilizam pelo menos duas telas diariamente (TV e computador), e 30 milhões de internautas usam três telas (TV, computador e smartphone)

> O consumo de telefones inteligentes no Brasil cresceu 86% em relação a 2012, chegando a 26% da população, enquanto a adoção de tablets cresceu 300%

> A maior parte da exposição à mídia é por meio de telas (69%), sendo o computador o que tem a maior média semanal (26 horas), seguido da televisão (19 horas) e smartphones (13 horas)

> Mais da metade da população online (52%) assiste TV e acessa a internet ao mesmo tempo — 68% dos internautas multitelas assistem TV e interagem com smarphone simultaneamente

Fonte: dados divulgados pelo Google em agosto, a partir de pesquisa encomendada a Ipsos, empresa de pesquisa e análise de mercado

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Tablet só não acompanha Renata Rubim no quarto, quando ela já está cansada para concentrar
Foto: Fernando Gomes

 

Hiperconectados

Quando a designer Renata Rubim comprou seu primeiro computador, em 1995, o aluno de Ciência da Computação Henrique Lopes recém saía das fraldas e descobria o alfabeto. A internet, discada, ainda era incipiente no Brasil e não tinha nem de perto o alcance e a popularidade de agora. Dezoito anos depois, as gerações de Renata, 65 anos, e Henrique, 22 anos, se aproximam por meio de hábitos semelhantes. Ambos têm smartphone, utilizam frequentemente as redes sociais, informam-se o tempo todo por meio da rede e ficam mais de oito horas online diariamente. Mesmo assim, quando estão off, dizem não se angustiar.

— Apenas no caso de estar na espera de alguma coisa importante, algo do trabalho, aí, sim — conta Renata.

— Não sinto angústia. Nesse ano, por exemplo, passei o Carnaval na Praia do Siriú (SC) com a minha namorada e ficamos lendo, sem internet. Nem televisão tinha, foi bom — relata Henrique.

Por outro lado, eles sofrem com a perda de foco e procuram alternativas, uma delas com o uso da própria tecnologia.

— Não estava conseguindo fazer o que tinha planejado durante a semana no trabalho e na faculdade e percebi que era porque passo muito tempo navegando. Me perdi um pouco. Baixei um aplicativo no celular que cria listas do que fazer, e aí vou agendando tarefas. É assim que pretendo retomar o ritmo — explica o jovem.

Já a designer aposta na meditação e em uma boa noite de sono:

— A perda de foco é muito clara para mim. É por isso que evito levar tablet para o quarto. Sinto que o foco se vai quando fico cansada, zonza, atrapalhada. É que nem subir num morro de lama, não consigo realizar nada.

Somado o tempo que os dois ficam, por dia, ligados na informação, pode chegar a 20 horas. Mesmo com o número elevado de tempo à frente das telas, a dupla assegura que está no controle da situação.

— Acho que o limite da informação extrapola quando você vai para algum lugar e deixa de perceber o que acontece à sua volta. A gente tende a passar mais tempo do que deveria na internet, mas isso não me prejudica — ressalta Henrique.

Em 2014, o acadêmico da UFRGS fará um intercâmbio na Holanda para estudar inteligência artificial e desenvolver um trabalho de processamento de linguagens naturais. Renata aproveita os espaços virtuais para divulgar criações, informar cursos e palestras e trocar ideias com profissionais mundo afora. Mesmo criticada pelas amigas contemporâneas, a designer brinca:

— Elas têm inveja. Os adultos e mais velhos não entendem a frequência de mundo dos mais jovens, por isso a rabujice. Acho que não sou um caso perdido.

Fonte: Zero Hora

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