Por Thaís Seixas

Após 10 anos de namoro, finalmente havia chegado o momento do administrador Marcos Peixoto, de 30 anos, subir ao altar. Como em todo casamento organizado, os preparativos começaram com um ano de antecedência: enquanto sua esposa ficou responsável pelos detalhes da festa, ele se encarregaria de planejar a lua de mel. O destino dos sonhos era a Itália, mas a realidade foi a cidade baiana de Lençóis. O motivo? Medo de avião.

Marcos desenvolveu a patologia conhecida pelos especialistas como Aviofobia durante uma viagem à Argentina. Por causa das turbulências em um voo noturno – e chuvoso -, ele fez um rápido percurso entre a “pirraça” à então namorada, que estava tensa durante a ida, e o próprio pânico antes da aterrissagem em Salvador.

“Assim que voltamos, eu disse que não andaria mais de avião. Seis meses depois, insistiram para eu viajar para Fortaleza. Eu consegui ir, mas não curti nada do passeio. Na volta, durante uma escala em Recife, fiquei desesperado e queria descer da aeronave. Tomei dois remédios para dormir, mas só fizeram efeito quando eu cheguei no aeroporto de Salvador”, lembra.

Casos como este são mais comuns do que se imagina e podem surgir em diferentes fases da vida. O psiquiatra Lúcio Botelho explica que a maior parte destas fobias aparece ainda na infância, entre 9 e 11 anos, e no final da adolescência, por volta dos 20 anos.

 

O administrador Marcos Peixoto desenvolveu fobia após turbulências em voo

O administrador Marcos Peixoto desenvolveu fobia após turbulências em voo

 

Segundo o especialista, na maioria das vezes a pessoa já possui um perfil psicológico e uma tendência a desenvolver a fobia. Além disto, vivenciar determinadas experiências ou ler nos noticiários situações como acidentes podem acelerar o aparecimento destas patologias.

“O principal sintoma é medo intenso e irracional de um determinado objeto ou situação. A outra característica é que este medo pode gerar um ataque semelhante ao ataque de pânico. Já a criança pode se comportar de maneira específica quando está exposta, como chorar, ter ataques de raiva e ficar paralisada”, explica Botelho.

E não são apenas os “anônimos” que sofrem com estas fobias. Algumas celebridades brasileiras e internacionais já assumiram o medo de avião. Entre elas estão os cantores Zeca Pagodinho, Luan Santana, Latino e Roger (Ultraje a Rigor), as atrizes Jennifer Aniston e Megan Fox e a apresentadora Fátima Bernardes.

Mulheres lideram

Os dados sobre a Aviofobia e outras fobias específicas ainda são pouco conclusivos, já que a maioria dos pacientes não procura um médico. Entretanto, estudos realizados em diversas partes do mundo comprovam que elas afetam duas mulheres para cada homem, confirmando a prevalência no público feminino.

Nesta parcela da população está a relações-públicas Graziele Mercês, de 25 anos, que nunca passou nem perto de um avião. Ao contrário de Marcos – que desenvolveu a fobia após uma experiência traumática -, ela sempre teve medo de altura.

Com planos de conhecer outros países em breve, a jovem já adiou duas viagens ao Rio de Janeiro e preferiu ir para Morro de São Paulo, no município baiano de Cairu. O namorado de Graziele – que adora viajar de avião – já sugeriu um novo destino este ano, mas ela ainda tenta convencê-lo de mudar o itinerário para um local mais próximo, que dê para ir de ônibus.

“Sempre tive medo desde que entendi o que era avião. Roda-gigante, para mim, é um desafio e tanto. Turbulência, então, nem se fala. Quando estive em Morro (de São Paulo), desci a tirolesa porque não tive jeito. Fiquei em pânico e quase morri”, relata.

Graziele também faz parte do grupo que nunca procurou tratamento médico. Ela tenta trabalhar o psicológico por conta própria mas, quando percebe alguma melhora, “um avião cai e o medo volta”.

De acordo com o psiquiatra, o tratamento mais adequado é a psicoterapia do tipo comportamental, quando o paciente é exposto gradativamente ao que lhe causa o medo. Também aos poucos, ele aprende e passa a exercitar técnicas de relaxamento, que podem contribuir para diminuir os efeitos durante o contato com a situação.

Graziele nunca entrou em um avião e já adiou duas viagens (Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE)

Graziele nunca entrou em um avião e já adiou duas viagens (Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE)

Voos necessários

Trabalhar viajando pode ser o sonho de muitos brasileiros, mas a atividade é encarada como um desafio para Manuela Vidal, de 28 anos, que fez 12 viagens de avião somente entre setembro de 2014 e maio deste ano.

Como trabalha em uma empresa de Consultoria em Gestão Empresarial, que possui clientes em todo o Brasil, ela sofre de ansiedade a cada novo voo e ainda não descobriu uma forma de evitar os constantes enjoos que sente quando está “nos ares”.

“Eu não tenho medo do transporte em si, acho que é o segundo mais seguro (dizem que o primeiro é o elevador), mas quando viajei pela primeira vez, aos 7 anos, passei muito mal. Descobri que existe até um nome para isso, que é Motion Sickness, ou Cinetose em português, uma confusão de sentidos que te leva a enjoo e vômito”, ressalta.

Já o advogado baiano Igor Carvalho, que mora em São Paulo desde 2011, também sente a obrigação de viajar, mas para visitar a família em Salvador. O problema destas situações não é a altura, mas estar em locais fechados, já que ele sofre de claustrofobia desde os 18 anos.

“Além de ficar sufocado dentro do avião, sempre ouço barulhos que não consigo identificar se são normais. Outra coisa que me deixa em pânico é a sensação de que as malas podem cair em nossas cabeças a qualquer momento, impedir o deslocamento dentro da aeronave e dificultar qualquer movimentação emergencial”, diz ele. Para minimizar o desconforto, Igor passa todo o tempo da viagem ouvindo música, pois não consegue dormir.

As fobias desencadeadas em viagens de avião são tema de estudo em cursos de formação de comissários de bordo. Disciplinas como “Inter-relacionamento pessoal” apresentam noções de psicologia e ensinam aos alunos o que é o pânico, como é gerado e suas implicações na segurança do voo. O comandante Lima, que também é professor de uma escola de aviação civil em Salvador, explica que os comissários são treinados para identificar os sintomas de um passageiro com fobia.

“Há indivíduos que apresentam sudorese intensa, mas ficam quietos, sem querer conversar com ninguém. Existe também passageiro que fica agitado, abrindo e fechando o cinto ou apertando os braços da poltrona. Uma vez identificados os sintomas, o passageiro passa a ser monitorado e a equipe estabelece uma escala de vigilância para observar e interagir, caso necessário”, ressalta.

Algumas empresas aéreas disponibilizam o serviço de acompanhamento para pessoas com fobia, como acontece com idosos ou crianças desacompanhadas. Entretanto, de acordo com o comandante, este ainda é um benefício caro, pois implica no acréscimo de mais um tripulante a bordo.

Fazer uso de remédios que controlam a ansiedade – que deve ser indicado por especialistas – é uma opção para quem sofre deste mal e precisa enfrentar viagens longas, segundo o psiquiatra Lúcio Botelho. Mas o passageiro que recebe acompanhamento médico pode utilizar técnicas de respiração e relaxamento que causam o mesmo efeito. Para quem tem medo de avião, o tratamento pode ser complementado com o uso de simuladores e até óculos 3D, que reproduzem as fases de uma viagem.

O “noivo” Marcos está procurando um destes simuladores para conseguir realizar o sonho de uma segunda lua de mel fora do País. Por enquanto, ele se prepara para cumprir um compromisso familiar: passar o Natal com a família da esposa, em Porto Alegre, no sul do Brasil.

(Via A Tarde)

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