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Excesso de informação, acúmulo de tarefas e rotina agitada. Praticamente, todas as pessoas estão sujeitas a essas circunstâncias. O problema é quando estes fatores tomam uma proporção exagerada, contribuindo para o desenvolvimento da ansiedade. “Ansiedade é um estado emocional com a qualidade do medo, desagradável, dirigido para o futuro, desproporcional e com desconforto subjetivo”, diz o psiquiatra australiano Aubrey Lewis, autor da definição mais aceita.

Na prática, tudo vai bem, mas a pessoa está desmedidamente preocupada com alguma coisa ou não se concentra no presente, pois está ocupada demais pensando no futuro ou no passado. Quando exagerados, os comportamentos são típicos de quem sofre de algum transtorno de ansiedade. Mas vale assinalar que a ansiedade tem um lado benéfico, pois sem ela vários avanços científicos, por exemplo, não seriam possíveis, pois as pessoas não teriam curiosidade sobre o futuro.
Diferente da normal, a ansiedade patológica paralisa o indivíduo e o impede de agir em determinadas situações. Os transtornos de ansiedade são: pânico; fobia social; fobia específica; ansiedade generalizada; transtorno obsessivo compulsivo e estresse pós-traumático. É um pouco apavorante, mas a boa notícia é que todos têm tratamento.

No Brasil, aproximadamente 12% da população é ansiosa, calcula o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o que representa 24 milhões de brasileiros com ansiedade patológica. Estima-se, também, que 23% da população brasileira terá algum tipo de distúrbio ansioso ao longo da vida. Para quem sofre de um deles todo o cuidado é pouco, pois a probabilidade de morrer por doenças cardíacas pode ser maior até quatro vezes. Segundo pesquisa de uma associação internacional voltada ao estudo do estresse, oito em cada dez trabalhadores apresentam algum sintoma de ansiedade ao longo da carreira.

Transtorno de pânico

Um ataque de medo sem qualquer fundamento que provoca incontroláveis sensações físicas e psicológicas e que não escolhe hora para acontecer. Quem já passou por isso, ou presenciou a cena, provavelmente testemunhava um desagradável ataque de pânico. Ruim para quem vê, pior para quem sente. O transtorno se caracteriza pela presença de ataques de pânico, como crises espontâneas de mal-estar e sensação de perigo ou morte iminente, acompanhadas de diversos sintomas físicos e cognitivos.

A.C., fonte que preferiu não se identificar, já sentiu isso na pele. Diagnosticada com pânico há quatro anos, a fotógrafa conta que ainda pequena desmaiou no altar da Igreja quando via a irmã casar. O mesmo aconteceu quando fez a primeira comunhão. Anos mais tarde, quando tentou ser modelo. “Já era praxe nos desfiles. Após sair da passarela, esquecia tudo que tinha acontecido”, conta. Na adolescência, a moradora de Cachoeirinha presenciou um acidente de carro em que o condutor, alcoolizado, atropelou vários pedestres. Situações limite provocavam reações estranhas em A.C. Ela só descobriu o motivo quando buscou tratamento.

A insônia a fez, aos 22 anos, procurar um psiquiatra. Depois de algumas sessões, A.C. descobriu o que tirava o seu sono era ansiedade e pânico. Começou então a fazer terapia e tomar remédios receitados pelo psiquiatra. Ritalina, Valdoxan Lamictal e Fluoxetina estavam no cardápio da fotógrafa de 29 anos, que, tempos depois, abandonou os medicamentos. “Nunca gostei de tomar remédios, e estes me davam enjoos, me deixavam sem dormir, ou muito agitada”, reclama.

Os ataques de pânico não davam trégua. “Quando eu estava num ônibus que andava muito rápido, eu sentia gosto de sangue na boca”, revela A.C.. Oportunidades de emprego foram jogadas para o alto. “Recusei ensaios fotográficos porque tinha que viajar, e isto me dava medo”, lamenta. A vida social também ficou complicada. A.C. já deixou de ir à praia com os amigos por ter medo da estrada. E até o sonho da profissão ela abandonou: “Mudei de curso porque no jornalismo tinha que fazer aulas de rádio no estúdio com vários colegas. Apesar de adorar rádio, isto me deixava muito nervosa.”

Hoje A.C. raramente vai ao psiquiatra, não toma remédios e tenta, sozinha, superar seus medos. Mesmo com a sombra da ansiedade, nem tudo é tão ruim para ela. “Minha vida é um eterno agridoce”, resigna-se.

Importante ficar alerta

Sabrina Caldeira é psicóloga com experiência no tratamento de paciente com transtornos de ansiedade. Segundo ela, após o primeiro ataque é preciso ficar alerta, porque é muito provável que outros aconteçam. Nesta hora, é preciso buscar ajuda. Paciente, psicólogo (e também psiquiatra) e medicamentos são os aliados no combate ao pânico.

Sabrina ressalta que o pânico prejudica a rotina das pessoas e, por isso, a ajuda é necessária. “A terapia é importante para auxiliar o paciente na identificação dos pensamentos destrutivos no momento do ataque de pânico, a fim de que, nos próximos, ele saiba desenvolver técnicas de desapego daquele pensamento, que são aprendidas na terapia”, afirma. Destaca, ainda, a necessidade do uso de remédios. “O uso da medicação é indispensável para o tratamento. Somente quando o paciente sente que já sabe lidar com seus ataques e percebe há muito tempo que não os têm, é o momento abandonar o remédio”, sustenta.

A psicóloga cita alguns motivos para o aumento do diagnóstico do pânico, como “o fato do mercado de trabalho exigir muito de todos nós”. “Além disso, a nossa cultura reforça a ansiedade. Mas hoje temos mais conhecimento deste transtorno e mais condições de diagnosticá-lo”, completa.

Quanto à cura, a psicóloga explica que, quando a pessoa se submete ao tratamento, pode nunca mais ter uma nova crise, pois aprende sobre si mesma, como pensa e funciona, e aprende a respeitar seus limites quando fica ansiosa. Porém, mesmo com tratamento, muitos não conseguem atingir a cura e precisam tomar remédios por toda a vida.

Dados epidemiológicos

Os fatores que dão origem ao pânico são três: genéticos, biológicos e psicossociais. Os genéticos dão conta de aproximadamente 15% a 17% dos casos. A taxa de concordância para gêmeos monozigóticosultrapassa 80%, já para gêmeos dizigóticos é de 15%. Fatores biológicos mostram que anormalidades na produção de noradrenalina e serotonina podem desencadear o problema. Quanto aos psicossociais, o que se sabe é que os ataques de pânico são resultado de uma defesa malsucedida contra impulsos provocadores de ansiedade.

O pânico está associado à agorafobia (medo de lugares abertos), hipocondria, desavenças conjugais e financeiras, abuso de álcool e outras drogas, além de ter relação direta com o suicídio, cujo risco de incidência aumenta em até três vezes em pessoas com pânico.

Estima-se que 2% da população tem este transtorno. Estatísticas mostram que o sexo feminino é de duas a três vezes mais afetado. No que se refere à idade, a maior incidência acontece entre os adultos de 18 a 35 anos.

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