Paciente de 31 anos usava o aparelho 18 horas por dia para trabalhar e interagir socialmente

Google Glass (Foto: Reprodução)

Google Glass (Foto: Reprodução)

Em setembro de 2013, um homem de 31 anos que trabalhava para a marinha americana procurou o Substance Abuse Rehabillitation Program (SARP), um centro de recuperação de dependentes químicos, para solucionar seus problemas com álcool e cigarro. Ele tinha um histórico de depressão, ansiedade, fobia social, transtorno do humor e transtorno obsessivo-compulsivo e completara uma reabilitação de dois meses em julho do mesmo ano. Seu último consumo alcoólico ocorrera duas semanas antes de recorrer ao SARP.

Como manda o regulamento da instituição, durante os 35 dias de tratamento, ele foi afastado não só de bebidas e cigarros, mas também de todos os seus aparelhos eletrônicos – incluindo um Google Glass, óculos tecnológico que mistura as funcionalidades de um smartphone e de um computador. O paciente usava o seu 18 horas por dia, retirando somente para tomar banho e dormir. Ele ganhara a autorização de trabalhar com o equipamento porque ajudava na sua produtividade: conseguia fotografar, classificar, montar inventários e acessar outras informações úteis para suas tarefas.

Os médicos logo notaram seu hábito involuntário de bater os dedos da mão direita nas têmporas, um reflexo decorrente do costume de ligar e desligar o aparelho vestido no rosto. Quando questionado, o homem disse que se sentia irritado e frustrado desde que começou a usar o Google Glass, dois meses antes.

Este foi o primeiro caso já registrado de vício em Google Glass no mundo. Segundo Dr. Andre Doan, diretor de pesquisas da SARP e coautor do estudo sobre o paciente, publicado recentemente na revista médica Addictive Behavior, o homem se mostrou defensivo durante o tratamento por não ter acesso ao gadget. “O paciente afirmou que os sintomas de abstinência do aparelho eram muito piores do que os de abstinência ao álcool. Durante os exames de admissão, ele perdia sua linha de pensamento com frequência, mas conseguia retomá-la com a ajuda do entrevistador. Ele percebeu que quando sonhava durante seu período de tratamento, enxergava o sonho através [de uma pequena janela cinza, igual à] do aparelho. Ele sentia uma urgência de usá-lo, especialmente quando tentava relembrar informações”, diz na pesquisa.
Entre os benefícios, Doan destaca o aumento de confiança em interações sociais, já que se tornava repetidamente assunto para iniciar uma conversa. “Sua identidade foi entrelaçada com o uso do Google Glass”, afirmou para o veículo Liberty Voice.

Ao final do tratamento, o temperamento, humor, lógica, memória e contato visual melhoraram e os movimentos involuntários diminuíram. Ele continuava, porém, desejando mexer no Google Glass e sonhando daquela mesma forma em algumas noites. A recuperação continuou com um programa de abuso de álcool com 12 passos e os cientistas encarregados pelo estudo preveem entrar em contato com ele.

Vício à internet

Para Doan, a culpa não é dos aparelhos eletrônicos. O problema é que esse tipo de tecnologia estimula o cérebro além do que estamos acostumados. Isso não é prejudicial para quem consegue impor limites a essas práticas, mas para pessoas mentalmente instáveis ou propensas ao vício, fica difícil usá-lo com moderação. No caso do Google Glass, essa restrição é ainda mais desafiadora – como o dispositivo é projetado para uma experiência constante e quase imperceptível com o usuário, a recompensa neurológica é ainda mais imediata.

Existe hoje um debate entre psicólogos sobre se a dependência à internet realmente existe ou se não passa de um sintoma de outra doença maior. Esse desdobramento de vício ainda não é reconhecido pela Associação Americana de Psiquiatira, agência responsável por oficializar condições mentais, nem foi incluído na versão de 2013 do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, guia sobre enfermidades psicológicas referência no ramo. Mesmo assim, muitos especialistas acreditam na gravidade desse problema, definido como um conjunto de disfunções emocionais, mentais e sociais derivadas do excesso de uso de tecnologias como videogames, computadores e celulares.

O alto número de americanos e chineses diagnosticados com sintomas similares ao do viciado em Google Glass resultou na abertura de centros focados no tratamento dessa forma de vício. Na opinião de Doan, explicitada ao final do estudo, é uma questão de tempo até que profissionais reconheçam a gravidade da doença e coloquem-na no mesmo patamar do vício em álcool. “Faltam pesquisas sobre como uma reorganização neurológica, ramificações mentais e dependência psicológica podem desenvolver a partir da utilização excessiva de internet e tecnologia, incluindo consequências em longo prazo. Se os motivos de usar tecnologia são similares à motivação pelo álcool e consumo de outras substâncias psicoativas, então a comunidade médica deveria abordar o vício em internet com essas ideias em mente”.

 

(Por ISABELLA CARRERA | Via ÉPOCA)

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