Júnior Santos

Maria Carolina Gonzales, uma das integrantes da pesquisa sobre a “proteína do medo”

A superação do medo que sentimos em determinadas situações, sem que exista uma ameaça real e imediata para isso, tem relação direta com uma proteína produzida naturalmente no cérebro e identificada pela sigla inglesa BDNF, que atua substituindo uma memória negativa por outra positiva. A descoberta, feita pela equipe de pesquisadores do Laboratório de Pesquisas sobre a Memória, do Instituto do Cérebro (Ice), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi publicada recentemente na revista científica “The Journal of Neruroscience” e aponta um caminho para o tratamento de fobias.

“A gente está estudando o mecanismo básico para entender como as memórias são formadas, como elas podem ser mantidas e como podem ser extintas. Não estudamos uma patologia específica, mas o processo natural. Talvez, para o futuro, o estudo nos possibilite um conhecimento maior acerca de novas estratégias terapêuticas para o tratamento de pessoas que sofrem de transtornos pós-traumáticos”, diz a pesquisadora Andressa Radiske.A proteína BDNF (sigla que em português significa “fator neurotrófico derivado do cérebro”) está envolvida nas modificações que acontecem nos neurônios decorrentes do aprendizado e da memória, segundo explica Radiske. Em função disso, ela e os outros cientistas da equipe — Maria Carolina Gonzalez, Janine Rossato, Cristiano Köhler, Jorge Medina e o neurocientista Martín Cammarota (chefe do Laboratório de Pesquisas sobre a Memória) — se debruçaram em estudos para descobrir se a proteína poderia estar envolvida na formação da memória da extinção, que seria uma memória que se sobrepõe a uma memória aversiva.

Após cinco anos de trabalho e experimentos com ratos de laboratório, a equipe obteve a resposta, e ela foi positiva. “Em um dos experimentos, a gente treinou os animais para que descessem numa parte de metal. Na primeira vez, eles sentiram um desconforto. Já nas outras vezes não sentiram mais. A reação positiva prevaleceu na medida  em que a quantidade de proteína aumentou, fazendo com que a primeira memória [da situação de desconforto] fosse sobreposta por outra memória não aversiva”, diz Andressa Radiske, que para explicar melhor a descoberta científica faz uma comparação com uma situação hipotética em que uma pessoa é vítima de assalto na rua e, em consequência disso, desenvolve um trauma a ponto de não querer mais sair de casa novamente.

De acordo com o que foi observado nos estudos, se depois essa pessoa sai à rua algumas vezes e nenhum fato negativo acontece, uma nova memória de não-medo, oposta à original, é formada e normalmente acaba por dominar o seu comportamento, mesmo que ela não tenha esquecido o episódio do assalto.

Tratamento de fobias
O chefe do Laboratório de Pesquisas sobre a Memória, Martín Cammarota, ressalta que a proteína BDNF é primordial para que possamos construir e manter, como parte do nosso acervo mnemônico, memórias que recontextualizam positivamente fatos traumáticos, mesmo sem esquecê-los.

Mas será que essa memória “boa” que se sobrepõe à memória “ruim” (como no exemplo do assalto) pode ser modificada a ponto de se tornar mais persistente? As pesquisas realizadas no Instituto do Cérebro (Ice) sugerem que sim, ao apontar para a possibilidade de que no futuro sejam desenvolvidos fármacos capazes de modular a produção, a maturação ou a sinalização neuronal induzida pelo BDNF para terapias capazes de favorecer pessoas que sofrem de transtornos pós-traumáticos.

Segundo Andressa Radiske, esses resultados são fundamentais para a compreensão dos mecanismos moleculares envolvidos no processamento das memórias aversivas e, em particular, o efeito que a expressão deste tipo de memórias tem na sua persistência. Dessa forma, “conhecer as consequências comportamentais produzidas pela utilização de uma memória de medo já consolidada certamente ajudará no desenvolvimento de medicamentos e terapias para modular sua reconsolidação e modificação”, o que auxiliaria o tratamento de pacientes com ansiedade ou transtorno pós-traumático, por exemplo.

Por Junior Santos

Por Júnior Santos | Equipe de pesquisadoras da UFRN falam, online, como chefe do laboratório de pesquisas da memória, prof. Martin Cammarota

O neurocientista Martín Cammarota alerta, no entanto, que apagar completamente um fato traumático não é bom porque seria como se não tivéssemos vivido o episódio, de tal forma que deixaríamos de estar preparados para evitá-lo. Segundo ele, as memórias aversivas nos permitem predizer eventos futuros e, assim, nos preparam para evitá-los.

“O caminho para tratar as fobias não é seu esquecimento, até porque seria quase impossível do ponto de vista técnico isolar uma memória de forma específica, o que dificulta enormemente apagar seletivamente um traço de memória”, esclarece.

Andressa Radiske enfatiza que o medo é um processo adaptativo que permite que a gente responda aos perigos que o ambiente nos oferece. “É importante sentir medo. O problema se dá quando esse medo se torna persistente, quando está sempre presente na nossa vida. Fazemos o experimento no laboratório com animais para poder estudar como é possível esse medo não se tornar mais tão persistente. Queremos saber se essa proteína poderia modificar a formação de uma nova memória que reprime esse medo persistente ao longo da vida.”

(Via Tribuna do Norte)

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