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Um poodle indefeso que mais parece um pitbull faminto pronto para atacar. Um pequeno corte no dedo se transforma numa corredeira de sangue. Uma aranha motiva histeria. Para quem sofre de fobia específica, o perigo pode estar em qualquer lugar. Visões distorcidas e carregadas de temor são comuns no cotidiano de quem sofre do medo patológico. O autor espanhol Miguel de Cervantes, na obra Dom Quixote, resumiu bem: “Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são.”

O problema geralmente tem origem em fatores biológicos, comportamentais e sociais. Independente da causa, a psicóloga Sabrina Caldeira alerta para a importância do tratamento: “A terapia é a técnica mais eficaz para lidar com fobias, superando inclusive os medicamentos. Nas sessões, ajudamos o paciente a compreender seu medo irracional, e os preparamos para que ele possa agir de forma tranquila frente ao que gera ansiedade.” “Forçar o paciente sem que ele esteja preparado, pode ser desastroso”, pondera.

Este transtorno caracteriza-se por um medo excessivo e desproporcional de algo bem específico. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, os principais tipos de fobias são de animal; de ambiente natural (medo de altura, tempestades, água); de sangue-injeção-ferimento; e de situações (medo de avião, elevador, locais fechados).

O medo é o elemento chave. Por causa do medo, o indivíduo foge de algumas situações, como o diabo foge da cruz. Diferente de outros transtornos que não escolhem hora para acontecer, a fobia só é despertada quando a pessoa se vê frente ao que a perturba. L.B., que preferiu não se identificar, é dermatologista e tem 35 anos. Há 17, possui carteira de motorista. No entanto, não dirige.

Nas aulas práticas de direção, era elogiada pelos professores. Mas o início tardio na prática trouxe prejuízos para a médica: “Sentei ao volante novamente com 27 anos. Nunca presenciei algo que tivesse me marcado no trânsito, acho que o meu medo é por ter praticado tarde demais.” Ela comprou um carro, usou algumas vezes, inclusive em viagens, mas sem sucesso. “Fiz diversas tentativas de dirigir com mais frequência, mas definitivamente não deu certo. O nervosismo tomava conta”, relata.

L.B. tem depressão há sete anos, mas não vai ao psiquiatra e se trata apenas com o uso de Paroxetina, medicamento indicado para o combate à depressão e fobias. Atualmente, ela usa táxis, caronas e lotações para se locomover. Ela revela que algumas pessoas ficam abismadas pelo fato de não dirigir. “Digo ‘táxi é muito fácil, é só chamar! E quanto você pagou de IPVA e seguro do carro esse ano? Pois é, eu não gastei nada!’ Então, mudo de assunto, e a vida segue”.

Um medo qualquer, que não precisa ser tratado. Muitas pessoas que sofrem de fobia pensam assim, alerta a psicóloga Sabrina Caldeira. Neste tipo de transtorno, é bastante comum que as pessoas não tratem a origem do medo, por considerarem mais cômodo. Algumas, equivocadamente, acham que não se trata de uma fobia, e sim de um medo normal. Entretanto, as diferenças entre o medo comum e o fóbico são latentes. “Medo e ansiedade extrema, tentativa de esquiva, reconhecimento de irracionalidade ao temor e grande sofrimento quando posto à frente do que gera a fobia. Estes são alguns comportamentos de quem apresenta fobia específica”, explica Sabrina.

Texto: Bruna Essig (7º sem) // Eusoufamecos

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