Dificuldade no diagnóstico faz com que doença seja pouco conhecida. Músico que sofre do distúrbio escreveu uma canção canção chamada misofonia.

 

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Um distúrbio que pouca gente conhece, a misofonia. É a intolerância a certos sons. “Quando eu entro no metrô, eu consigo ver em menos de cinco segundos, quem está mastigando alguma coisa e quem não está e do lado de quem eu vou sentar. Eu vou para um canto, tem uma pessoa mascando chiclete ali, eu vou para outro canto, tem uma pessoa comendo um salgadinho ali, não tem onde eu ficar, eu saio do vagão. Eu achava que só eu tinha esse tipo de transtorno, de aversão, de fobia”, conta Bruna Aiiso

Bruna não tolera o som de alguém mastigando. “Comer é uma coisa que une as pessoas. Então é um momento feliz teoricamente. E para o misofonico, não. É um momento desesperador”, diz Bruna.

Bruna sofre de um transtorno conhecido como misofonia. A palavra vem do grego, e significa aversão ao som. Para os misofonicos, o problema não é o caos sonoro. Mas, os pequenos barulhinhos. Pode ser alguém mastigando. O clique de uma caneta. Um teclado. É mais do que um mero incômodo. “A gente sente raiva da pessoa que está fazendo isso. Eu já começo a sentir arritmia, falta de ar, nervoso. Eu fico imaginando eu falando para essa pessoa ‘pelo amor de Deus, para de fazer isso”, conta Bruna.

Daniela também não aguenta. “Se tem alguém com chiclete, bala, eu me retiro também. Eu me afasto desse incomodo porque eu não consigo suportar ele”, diz Daniela Bernardi, psicóloga.

Não tem nada de errado com a audição da Bruna e da Daniela. “Na misofonia, normalmente o ouvido está impecável”, afirma Tanit Ganz Sanchez, prof. de Otorrinolaringologia da USP. A diferença está na reação aos sons. “Existe sim uma alteração de ondas cerebrais com ondas mais rápidas. Isso causa uma hipersensibilidade”, explica Nazareth Ribeiro, neuropsicóloga. “A misofonia é um conjunto que associa um problema de atenção, de não conseguir colocar a atenção onde ele quer e sim onde alguma coisa domina essa atenção, junto com essa emoção forte, normalmente, vinculada à raiva”, explica Tanit Ganz Sanchez.

Para o Paul, um americano que mora em Nova York, o primeiro clique veio aos 12 anos. “O meu pai estava terminando de comer e ficou passando o talher no prato. Eu parei o que estava fazendo e perguntei: Dá para parar?”, relembra. Com o passar dos anos, outros barulhos passaram a incomodar. “Para mim, a pior coisa é quando alguém faz uma bola com o chiclete. Não aquelas bolas grandes cheias de ar. Mas as pequenas, que fazem um estalido”, diz Paul.

Paul preferiu se afastar dos amigos, do que reclamar dos sons ao redor. “Quando você se isola, você esquece que tem esse problema porque ninguém a sua volta está fazendo barulhos”, afirma. “Quanto mais sons provocam essa irritabilidade no paciente, maior é a restrição de vida social inclusive de vida familiar”, explica Tanit Ganz Sanchez. “Tem gente que me acha um chato”, conta Paul.

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“Eu achava que era implicância minha, intolerância, nunca imaginei que isso existia um diagnóstico”, Daniela Bernardi, psicóloga. O diagnóstico existe, mas não é fácil. A misofonia é geralmente confundida com outros transtornos. “Eu mesma já fui em três psiquiatras e eles falavam isso pode ser possivelmente uma síndrome do pânico, ou então uma fobia social. Já tomei antidepressivo duas vezes e não adiantou nada, então eu acho que não é esse o caminho”, relembra Bruna Aiiso. “Existe com certeza a dificuldade por parte dos profissionais, esse é um dos fatores que faz com que a misofonia seja pouco conhecida como doença e com certeza, pouco tratada”, explica Tanit Ganz Sanchez.

Daniela optou por um tipo de terapia que monitora a atividade cerebral para tentar controlar os impulsos do paciente. “A cliente fica com uma tela, eu fico com outra, pela tela eu consigo acompanhar a ativação cerebral da cliente na área que a gente está treinando”, Nazareth Ribeiro, neuropsicóloga.

Daniela tem que prestar atenção no carrinho. Se um barulho externo fizer com que ela perca o foco, o programa avisa e a terapeuta ajuda Daniela a se concentrar de novo. “Inspira e expira” diz a terapeuta da Daniela Ao repetir esse treino várias vezes, o paciente acaba aprendendo a abstrair os sons que irritam. “O seu cérebro aprende e tende a repetir esse padrão”, explica a neuropsicíloga. “Já percebi uma melhora incrível”, comemora Daniela

Paul é músico. A profissão depende justamente da audição. Mas neste caso, o que ele toca e ouve, só traz alívio. “A música me ajudou a interagir com as pessoas de uma forma social”, diz.

E em uma forma de desabafo, ele escreveu uma canção chamada misofonia. “Não posso mudar o mundo, ou acabar com a fome, mas posso fazer as pessoas que sofrem de misofonia se sentirem um pouco melhor”, afirma Paul.

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