Nesta época, a sensação de que os dias estão mais curtos e os anos estão ‘voando’ é cada vez mais comum

Vida moderna acelera o relógio biológico, afirma psicóloga. Ilustração: Júnior Lima

Vida moderna acelera o relógio biológico, afirma psicóloga.
Ilustração: Júnior Lima

Manaus – O ano de 2014 está indo embora e faltou tempo para concretizar metade dos planos previstos? Pois a sensação de que os dias estão mais curtos e os anos estão ‘voando’ é cada vez mais comum, segundo especialistas.

Acostumada a atender pacientes com sintomas de depressão, ansiedade, fobia social, transtorno do pânico e transtorno obssessivo-compulsivo, a psicóloga Sandra Hayashi diz que a sensação de falta de tempo é frequente, principalmente entre os pacientes que chegam ao consultório com sintomas de ansiedade.

Fatores como faixa etária – que entre as crianças pode gerar a impressão de que as horas demoram a passar enquanto aguardam para ir ao parque e  nos adultos que se dizem muito ocupados a sensação é de que o tempo ‘voou’ – e a ampliação do acesso às tecnologias está, de acordo com Hayashi, entre as causas da ‘falta de tempo’. Isto é, que não há mais prazo para honrarmos os compromissos que assumimos.

“Há várias hipóteses para a causa desta sensação. Entre elas, o acesso à tecnologia que se por um lado encurtou as distâncias e nos trouxe tantas facilidades, por outro nos deu a falsa sensação de sermos multitarefas, de podermos resolver mais situações num curto espaço de tempo”, diz Hayashi.

“Com isso, aceitamos muitos compromissos sociais, o que nos impulsiona a mudar o ritmo natural abrindo mão do tempo de descanso necessário para recuperarmos a mente e o corpo adequadamente”, afirmou a psicóloga.

Hayashi lembra que a preocupação em planejar o futuro mais do que viver o presente é facilmente notada entre os pacientes que recorrem aos consultórios de psicologia, principalmente entre os pré-adolescentes.

“Nem sempre a preocupação com o futuro é disfuncional, levando em conta que o planejamento é de certa forma positivo e permite, inclusive, um alívio da ansiedade com situações futuras. Porém, em alguns casos, o nível de preocupação é tão alto que inibe até mesmo o planejamento adequado, caracterizado pelo equilíbrio entre as atividades direcionadas à vida profissional e as que visam a qualidade de vida”, afirmou.

Desacelerar o ritmo, aprender a dizer não, dividir tarefas com os outros, ser menos autocrítico e recusar convites são algumas das medidas indicadas pela psicóloga para que, definitivamente, não precisemos vestir a capa do herói onipresente.

“Profissionais da saúde e gestores de diversas áreas, assim como os profissionais autônomos, que mesmo não tendo chefe, se sentem culpados por abrir mão de um tempo em que podiam estar trabalhando e tendo mais lucros são exemplos de profissões que sentem intensamente não terem tempo para o lazer”, disse.

Falta de concentração, irritabilidade ou problemas pessoais por falta de tempo dedicado à família são alguns dos sintomas apresentados pelos pacientes quando chegam ao consultório devido ao estado de estresse excessivo, segundo Hayashi.

“Não podemos afirmar que tais doenças surjam em virtude da falta de tempo, mas ansiedade, depressão e transtorno de pânico estão entre as doenças que comumente acometem quem se encontra em um ritmo extremamente acelerado”, disse. “Há pessoas que não dão descanso para suas mentes, que exigem de si mesmas e dos outros um padrão de excelência permanente e não conseguem se desligar de suas atribuições mesmo após um longo dia de trabalho”, alerta Hayashi.

“É preciso dar uma folga para si mesmo sem culpar-se por isso, é preciso parar, simplesmente viver o aqui e o agora, respeitando seus limites, desta forma o tempo pode ser seu aliado em vez de seu opressor”, completa a psicóloga.

 

Tecnologia ajudou a acelerar o ‘relógio psicológico’

Para o mestre em sociologia e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio Nascimento, um fator histórico que contribuiu para a aceleração dos dias foi a revolução tecnológica, fenômeno responsável, segundo ele, por tornar as relações e as pessoas transitórias e descartáveis, através do imediatismo e da busca desenfreada pela modernidade.

“Enquanto no passado uma carta levava 15 dias, no mínimo, para chegar, hoje se você manda um Whatsapp para alguém e a pessoa demora para te responder, você já fica magoado”, comentou.

O reflexo do advento da modernidade, segundo o sociólogo, influenciou até mesmo os costumes regionais da população no Amazonas.

O impacto da falta de tempo nas relações familiares é ainda maior, segundo Nascimento, indo desde o distanciamento entre pais e filhos, uma vez que o horário das refeições era antigamente o tempo disponível para as conversas familiares, até o crescimento dos índices de obesidade, no mundo.

“As crianças almoçavam em casa, não havia obesos em Manaus. Hoje, fico assustado com a quantidade de crianças obesas no Amazonas e isso ocorre porque a mãe dá o dinheiro para o filho comer fora e, consequentemente, sem um olhar atento ele acaba comendo o que quer”, disse.

Na esfera da comunicação, segundo o sociólogo, a exigência da veiculação de notícias em tempo real tornou os jornais mais fugazes em busca de informações. As entrevistas que, atualmente, ocorrem geralmente por telefone, no passado eram feitas regadas a uma boa xícara de café.

“Com o imediatismo, uma entrevista só ocorre pessoalmente se for preciso fazer imagens. Não há justificativa para o pessoalmente. O tempo não permite. A ideia era de que a medida que a tecnologia aproximasse os seres humanos eles trabalhassem menos, mas ocorreu o contrário”, afirma Nascimento.

Ele também cita o advento da Revolução Industrial, quando a vida pessoal do indivíduo se dissociou do trabalho, com os trabalhadores do campo que tinham a possibilidade de conversar, fumar um cigarro e trabalhar no mesmo ambiente, sendo substituídos pelos operários urbanos.

“Como consequência disso, houve o distanciamento entre a casa e o trabalho do indivíduo. Nos séculos 19 e 20, os bairros operários ficavam perto das casas dos trabalhadores. Desta forma, eles podiam almoçar com a família ou sair um pouco mais tarde para ir ao trabalho, por exemplo”, explicou.

Psicológico

Segundo o também professor do Departamento de Física da Ufam Minos Martins, a sensação de que o tempo passa cada vez mais rápido é puramente psicológica.

Conforme o professor, não havendo comprovação física de que o tempo evolua mais rápido a cada ano. “Esta é uma questão mais psicológica. Se você fizer um teste colocando duas pessoas numa sala e cronometrar o tempo, ele será igual para ambas. O tempo é uma grandeza fundamental, pois está associado a variantes estudadas pela física como, por exemplo, a força. Mas desconheço que alguém estude o tempo de forma isolada”, declarou.

 (Via d24am)

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