Tecnologia criada na Universidade de São Paulo deixa as crianças mais calmas e ajuda no tratamento de outros transtornos, como o de déficit de atenção e hiperatividade

Por Cilene Pereira

Interface do Projeto Transformador, criado por Maria Lúcia Rossi. “A ideia foi acoplar a tecnologia à terapia”, explica.

Interface do Projeto Transformador, criado por Maria Lúcia Rossi. “A ideia foi acoplar a tecnologia à terapia”, explica.

 

Tratar uma criança com depressão ou portadora de transtornos ansiosos é um desafio para médicos e psicólogos. Se para adultos é difícil expressar o que se sente e identificar – e modificar – pensamentos e situações associados às doenças, no caso dos pequenos os limites são ainda mais evidentes. Um instrumento criado no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo tornará esta tarefa mais fácil. Trata-se de um programa eletrônico que, por meio de jogos e outras estratégias, proporciona interação, diversão e eficácia.

Batizado de Projeto Transformador, o programa foi criado pela psicóloga Maria Lúcia Rossi, professora do Programa de Ansiedade da instituição. “A psicoterapia com crianças tem particularidades. Geralmente, elas não apresentam capacidade verbal para formular uma narrativa organizada e contextualizada sobre seus problemas”, explica a especialista. Por essa razão, é preciso que o processo terapêutico utilize recursos que facilitam a comunicação com elas. “E os instrumentos computadorizados possibilitam o acesso a esquemas cognitivos, emoções e comportamentos de forma lúdica e criativa, em menos tempo e de modo mais fácil, aumentando a possibilidade de memorização da sessão e a consequente generalização dos conceitos aprendidos”, afirma Maria Lúcia.

AVANÇO Depois de usar o recurso, Rafaela já mostrou melhora nos sintomas

AVANÇO – Depois de usar o recurso, Rafaela já mostrou melhora nos sintomas

O programa aplica os conceitos da terapia cognitivo-comportamental, cuja meta é ajudar os pacientes a identificar sentimentos, pensamentos e comportamentos e auxiliá-los na sua modificação. É composto de seis etapas, a partir das quais a criança é estimulada a falar mais sobre suas emoções e dificuldades, entre outros aspectos. No quinto passo, por exemplo, há a figura da “mala velha”, onde devem ser colocados os pensamentos disfuncionais.

A ferramenta é indicada para o tratamento psicoterápico de crianças portadoras de transtornos ansiosos como o estresse e a ansiedade generalizada (preocupação excessiva, que perdura por mais de seis meses e vem acompanhada de sintomas como insônia e irritabilidade). Além disso, pode ser usada como auxiliar no controle da depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e distúrbios de desregulação do humor, bipolar, obsessivo-compulsivo e de desafiador de oposição (caracterizado por padrão de desobediência, comportamento hostil e de desafio constante aos adultos).

Ela foi testada em dois estudos. O primeiro teve como participantes dez crianças com transtornos de ansiedade submetidas a doze sessões semanais. O outro teve como objetivo a avaliação pelos terapeutas – doze profissionais usaram o programa em sua prática clínica. Nos dois casos, o projeto revelou-se eficaz. A menina Rafaela Faria, 8 anos, foi uma das que se beneficiaram. Depois de algumas sessões, Rafaela já demonstrou menos ansiedade. “Ela está mais segura e se cobrando menos”, conta a mãe, Rosângela.

Foto: Airam Abel

Foto: Airam Abel

(Via IstoÉ)

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