Os livros de desenhos promovem um movimento de introspecção, foco e consequente “calmaria mental” que conduz ao relaxamento e vira modismo

Jamylle Prieto gostou tanto de se “desconectar” do cotidiano com a pintura de gravuras que montou um grupo de amigas na Internet para partilhar o passatempo

Jamylle Prieto gostou tanto de se “desconectar” do cotidiano com a pintura de gravuras que montou um grupo de amigas na Internet para partilhar o passatempo

 

Por Nélson Gonçalves

Os livros de desenhos promovem um movimento de introspecção, foco e consequente “calmaria mental” que conduz ao relaxamento e vira modismo

Mergulhar no mundo de gravuras com o lápis de cor à mão está longe de ser um modismo. “Mania” entre adeptos da necessidade de se desligar das tensões cotidianas, as publicações de Johanna Basford (Jardim Secreto e Floresta Encantada) podem até ser mais um fenômeno casual de vendas, mas estão fazendo milhares de pessoas relembrarem que o “essencial é simples”. Daí a compreensão do sucesso não das pinturas, mas das sensações que o ato de pintar em detalhes gera, uma “alavanca” comportamental em busca de sossego da mente, um antídoto contra o frenessi das pressões do “mundo moderno”.

Chamados de arteterapia para uns, de caça ao tesouro antiestresse para outros, o fato é que o refúgio para o universo das cores e desenhos para adultos é explicado pelos reais benefícios de combate à ansiedade, uma aquietação que explica, por si só, a busca pela “paz do pensamento”. Assim, para psicólogos, independentemente inclusive de gosto pela pintura, essas publicações se diferem das “febres de consumo” por trazerem concretamente, sensações na direção da “paz interior”.

Para a psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental Mauricéia Quinhoneiro, o prazer interior explica a busca pela ação de colorir gravuras mesmo para o mais apressado sem paciência para permanecer dois minutos em paz consigo próprio.  “Não penso a busca pelos livros de colorir gravuras como modismo e sim como possível evidência de um movimento de retração, contrário ao de expansão previsto pela abordagem sistêmica e  também pelo  enfoque dialético”, pontua.  Ou seja, os livros de colorir promovem um movimento de retração: introspecção, foco, concentração e, como consequência, uma aquietação mental necessária ao relaxamento, controle do estresse   e ampliação das habilidades perceptivas e criativas.

Para Mauricéia, a despeito dos possíveis exageros mercadológicos, podemos considerar tais livros, inclusive, como mais uma ferramenta para prevenção e tratamento da Síndrome do Pensamento Acelerado. “Trata-se de uma condição moderna provocada pelo ritmo alucinante das grandes cidades e pelas overdoses diárias de informações e obrigações que afetam a saúde emocional de muita gente”, acrescenta.

Ela lembra que a Síndrome do Pensamento Acelerado foi denominada e vem sendo estudada pelo psiquiatra, pesquisador e escritor Augusto Cury. “Não é uma doença, mas um sintoma vinculado a um quadro de transtorno de ansiedade. As pessoas mais vulneráveis geralmente são aquelas que são avaliadas constantemente por conta das suas obrigações profissionais, não podendo desligar um minuto sequer, caso contrário o trabalho é comprometido”, aborda.

A psicóloga explica que o excesso de informações satura o córtex cerebral, produzindo uma mente hiper pensante, agitada, com baixo nível de tolerância, impaciente e sem criatividade. “Como resposta a toda essa tagarelice mental, consequente de um movimento de expansão caracterizado pelo excesso de estímulos, muitas pessoas mostram-se sedentas por um movimento de retração, um reencontro consigo mesmas, daí o sucesso dos livros para colorir.

Fonte: print4me.com.br
O detalhismo e a introspecção

Para a secretária Jamylle Prieto, 36 anos, o detalhismo presente nas gravuras a serem coloridas a pegou pelas mãos e mente. “Eu nem gosto de pintar, ou não gostava. Vi na Internet algumas pinturas, fiquei curiosa. O que me pega é o momento seu trazido por essa atividade. Você realmente para naquele momento, consegue mesmo se desligar da vida. E são tantos detalhes nas pinturas que o mergulho é inevitável nisso”, argumenta.

De outro lado, a associação com o bem-estar proporcionado pela atividade veio também atrelada à recordação da infância. “Minha mãe é professora. Resgatei lápis de cor dela, porque achei a princípio que era uma onda e ia passar. Mas esse detalhismo nos desenhos me encantou e isso tudo combate minha ansiedade. A intenção também é de se divertir, brincar com as cores”, conta.

Para Angela Carvalho, o detalhismo presente nos desenhos a serem pintados a atraiu, o que a fez lembrar do trabalho com mosaicos que já realizava. A partir da experiência, o ‘mergulho’ em cada detalhe foi inevitável, conta.  “O trabalho com mosaicos exige esse nível de detalhismo que está presente também nas gravuras”, cita.

Ana Carolina de Lima, 34 anos, gerente geral, disse que soube do livro através de amigas que já compartilham “outro vício”: esmaltes. “Sempre gostei de trabalhos manuais como bordar, cozinhar, decoupage. O livro era mais uma descoberta. Com certeza, voltar a pintar faz com que recordemos algo da infância. O pulo do gato da autora é fazer com que as pessoas, hoje tão estressadas e sempre correndo, tenham um tempo para relaxar e se desligar de tudo”, depõe.

Ana diz que a melhor sensação que senti, ao pintar, é se desligar dos problemas do trabalho. “Eu tenho gostado muito dos resultados das minhas pinturas, até fico exibindo para as amigas! Tenho tentado melhorar as técnicas de sombra e luz, mas, tem dias que só quero pintar sem nem me preocupar, sequer, com isso”.

A nutricionista Heloísa Gil, 36 anos, conta que sempre gostou de pintar com lápis de cor. “Para mim não é uma redescoberta porque eu sempre pintei e desenhei, mas com certeza tem associação com a infância. Associar a pintura a uma atividade antiestresse foi um chamariz bem grande”, opina.

A advogada Amanda Caballero da Rocha, 27 anos, também soube do livro por meio de um post do Facebook. “Imediatamente, quis o livro, pois desde criança gosto de colorir, tanto que sempre comprei livros infantis, praticava esse hobby, assim como bordar, fazer decoupage, bijuterias. Mas, sempre senti falta de colorir algo mais complexo, não apenas personagens infantis”, descreve.

O depoimento da advogada sintetiza a “sensação” e relação com a pintura das gravuras mencionadas por todos: “Ao pintar o livro, não percebo o tempo passar, tampouco, penso em trabalho, afazeres, dinheiro, problemas, apenas, combino cores e pronto”, finaliza.

(Via Just Lia)
Estratégia mindfulness

Desligar ou mergulhar no mundo do lápis de cor e pinturas pode ser uma excelente estratégia de mindfulness, a chamada atenção plena. A terapeuta Mauricéia Quinhoneiro aborda que trata-se de um tipo de consciência que ocorre quando prestamos  atenção de forma proposital ao momento presente e sem fazer qualquer julgamento em relação a  experiência que se apresenta em cada momento.

É o que os terapeutas cognitivo-comportamentais entendem pela Terceira Onda da Terapia Cognitiva. “Enquanto que na abordagem anterior o enfoque principal está na reestruturação de pensamentos e crenças distorcidas e desadaptativas, as intervenções mais recentes não priorizam a restruturação, mas sim a observação não-julgadora ou consciência plena, como as estratégias de mindfulness”, explica.

Segundo ela, nos últimos 15 anos foram realizados cerca de 600 trabalhos científicos que apontam para a eficácia das estratégias de mindfulness. “Essas estratégias têm sido usadas para manejo de estados de ansiedade e também para lidar com estados depressivos recorrentes e em pesquisas sobre prevenção de recaídas no uso de álcool e drogas”, menciona a psicóloga.

Assim, a associação dos modelos de reestruturação de pensamentos e crenças distorcidas e desadaptativas (terapia cognitivo-comportamental)  com as estratégias de mindfulness orientam para a conquista de melhores resultados no processo terapêutico, garante. “Desta forma, vale salientar que os livros para colorir não substituem a indicação terapêutica, mas podem ser ótimos coadjuvantes”, observa.

Por isso, colorir, como estratégia de mindfulness, é um remédio gostoso, ou seja, uma ferramenta prazerosa que pode prevenir e ajudar a tratar vários transtornos psicológicos. “A atenção plena proporcionada pela ação, quiçá despretensiosa, de colorir promove relaxamento e prazer. No contrário, seria improvável que tal atividade se repetisse e se transformasse num hábito para muitas pessoas. O prazer é fundamental, principalmente quando falamos de atividades que, ao menos em princípio, mostram ter um fim em si mesmas”, pondera Mauricéia.

(Via Just Lia)

Arte sem arte

Entre os psicólogos, a arte de colorir presente nos livros de gravuras, em última análise, remete de fato à Arte sem Arte cultivada, como,  em especial, em alguns países do extremo oriente, inclusive o Japão.

Mauricéia cita, por exemplo, do tiro com arco, esgrima, o arranjo de flores, a cerimônia do chá, a dança, entre outras, como exemplos da Arte sem Arte no oriente. “Tais expressões tem como objetivo exercitar a consciência com a finalidade de atingir a realidade última, ou seja, um estado de iluminação suprema que vai além da concepção do intelecto também conhecido como Nirvana”, pontua.

Ou  seja, somos definidos como seres pensantes, mas grandes feitos só se realizam quando transcendemos às análises e cálculos racionais. Neste sentido, devemos reconquistar a ingenuidade infantil através da arte de nos esquecermos de nós próprios. “Pessoas que se dedicam à Arte sem Arte experimentam o abandono de definições, conceitos e significados em favor de uma percepção pré reflexiva, espontânea, direta e única”, situa a psicóloga.

(Via JCNet)

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